12 de dezembro de 2016

Capítulo 20: O Altar de Pedras

12 dezembro Escrito por Eliude Santos , Comente aqui
Adão colocou a última pedra sobre o altar e ela fez com que as outras se desequilibrassem e tombassem todas. Ele ajoelhou-se desolado junto aos destroços e começou a chorar.

“Por que choras, Adão?” Ouviu-se uma voz que vinha de um arbusto mais adiante.

“Quem és tu?”

“Sou teu irmão. Ouvi teu choro e vim para prestar-te socorro.” Disse Lúcifer, abrindo caminho entre as folhagens. “O que fazes?”

“Faço um altar.”

“O que farás com um altar? Subirás nele para alcançares o fruto daquela árvore? Se for para isto, deverias construí-lo mais próximo dela.” Disse apontando para a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal.

“Não posso provar daquele fruto. Antes de partir, nosso Pai falou conosco e nos disse que não comêssemos dele.”

“Não comêssemos? Quem mais está contigo neste lugar?”

“Havia uma mulher, mas ela se foi.”

“E por que não foste com ela?”

“Porque nosso Pai nos instruiu a cuidar deste Jardim. Eu devo fazer o que o Pai me mandou.”

“E o que mais Ele te ordenou a fazer?”

“Disse que deveríamos procriar e encher a Terra.”

“E como pretendes cumprir esta outra ordem do Pai se a mulher já não está mais no Jardim?”

“Por isso preciso construir o altar: para falar com o Pai e receber mais luz e entendimento acerca do que devo fazer.”

“Tolice. Ele não te ouvirá só porque ergueste um amontoado de pedras. De fato, Ele não te ouvirá nem mesmo que grites dos topos dos montes, pois Ele já não está mais neste Mundo.”

“Onde estaria se não estivesse aqui?” Disse Adão confuso.

“Olha ao redor. Tu o vês nalgum lugar?”

“Ele deixou o Jardim quando eu ainda era uma criança. Deve ter ido para as terras do leste visitar outros filhos como eu, e se demorou por lá admirado com sua industriosidade.

Outro dia, vi os grandes edifícios que se erguem nas terras do Sol nascente, além da outra margem do rio. Ele certamente está por lá.”

“Deves ter visto os arranha-céus de Havillah. É de lá que venho e posso garantir-te que naquela cidade Ele não está.”

“Devem haver outras cidades. Ele não nos deixaria aqui sozinhos.”

“Há sim outras cidades e eu as conheço todas pois ajudei a construí-las e posso afirmar-te que Ele também não está em nenhuma delas, pois, como te disse, Ele não está mais neste Mundo.”

“O que é isso que dizes? Nada sei de outros Mundos.”

“Não te lembras. Mas, este Mundo foi feito à semelhança de um outro de onde viemos todos. Estou certo que se comeres do fruto daquela árvore, lembrarás de tudo.”

Lúcifer foi até a árvore de copa vermelha e colheu dois frutos bem maduros.

“Toma”, disse estendendo a mão para Adão, “come um e leva o outro para a tua mulher. Este fruto te dará a sabedoria que procuras.”

“Afasta de mim este veneno, porquanto nosso Pai nos disse que no dia que dele comêssemos certamente morreríamos. A mulher que o Pai me deu por esposa deixou-se iludir pelas palavras da serpente e agora deve estar morta em algum descampado a leste do Éden.

Não cometerei o mesmo erro que ela.”

“Deves ter entendido errado as instruções do Pai. Este fruto abrirá tua mente e te fará conhecedor de todas as coisas.

Decerto que a mulher deixou este Jardim porque, provando do néctar carmesim, seus olhos se abriram para a verdade.”

“Ela não deixou o Jardim; ela foi tirada dele.

Eu estava procurando pedras para o altar quando ouvi gritos. Corri para cá e, chegando, encontrei restos do fruto no chão, e avistei a serpente voando para longe com a mulher em seu dorso.

Se Lilith tivesse cumprido as ordens do Pai, certamente ainda estaria aqui.”

Lúcifer deixou os frutos caírem no chão e, aproximando-se de Adão, estendeu sua mão direita para ajudá-lo a levantar-se.

Quando o homem ainda ajoelhado estendia o braço, o anjo decaído agarrou-o com força, rasgando-lhe o punho com a unha do dedo indicador. A carne se abriu, mas não havia sangue no corpo do homem para ser derramado.

“Ela ainda estaria aqui fazendo o quê, Adão?

Para procriares conforme te ordenou o Pai, precisas de um corpo de carne e sangue, e não somente de um tabernáculo de carne e ossos como este que te mantém de pé.

Não viste como procriam os outros mamíferos do Jardim? Sem sangue, teu corpo não teria forças para produzir sêmen; sem sêmen, não haveria fecundação; e sem fecundação, não poderias cumprir a ordem que o Pai te deu de procriar e encher a Terra.

Teu corpo precisa amadurecer para tornar-se fértil. Portanto, ouve o que te digo, não há outro meio de encheres tuas veias de sangue, senão comendo deste fruto que consideras proibido.

Talvez a mulher tenha percebido que jamais amadurecerias a este ponto, e deixou este lugar em busca de um homem de verdade.”

Adão sentiu-se ofendido por aquelas palavras. Mas ao observar o corte no punho, seu coração aquietou-se, “O Pai não nos daria uma ordem sem que houvesse um modo para que pudéssemos cumpri-la.”

“E há”, disse Lúcifer apontando para os frutos jogados no chão.

“Obedecerei todas as ordens que meu Pai me deu.

Se Ele disse que eu não deveria comer deste fruto, certamente há um outro modo de gerar descendência e encher a Terra.

Por isso devo terminar este altar de pedras.

Preciso de mais luz e entendimento e somente o Pai pode me oferecer o conhecimento que procuro.”

“Como quiseres.”

“Disseste que ajudaste a construir a cidade a leste do Éden. Deves conhecer a arte da construção.

Ajuda-me a finalizar este altar.”

“Precisarás de ferramentas.”

“O que são ferramentas?”

“São reguladores, tais quais as leis que o Pai te deu. O conhecimento e bom uso de tais reguladores produz a beleza da construção.”

“Diz-me onde posso encontrar tais ferramentas.”

“Em um alojamento de construtores. Mas precisarias estabelecer aliança com eles a fim de não revelares os segredos da construção para outros que não fossem considerados dignos de tomar parte em tal ciência.”

“Onde fica tal alojamento?”

“A leste do Éden.”

“Não posso deixar o Jardim.”

“Não percebes? Há certas leis que precisam ser quebradas para que haja mudança. A corrupção é o fermento do progresso.”

“Não podes trazer tais ferramentas a mim?”

“Isso teria um preço.”

“Um preço?”

“De onde venho, todas as coisas tem um preço.

Não entenderias o motivo pois aqui neste Jardim nada é conseguido com esforço.”

Lúcifer olhou para o amontoado de pedras e continuou, “Mas, agora tens um desafio a tua frente. E este desafio exigirá que devotes tempo e talentos na construção de algo que poderás verdadeiramente chamar de teu. Não será algo que teu Pai te deu, mas algo que te devotaste a criar. Quando tua obra estiver concluída, serás criador como Ele.

Não achas justo que, propondo-se alguém a fazer uso disso que com tanto esforço construíste, tivesse essa pessoa que te ofertar semelhante quantidade de tempo e talentos em troca de seu uso?”

“Sim. Parece-me justo.”

“Trarei pois as ferramentas que desejas, porquanto, a despeito de tua inocência quanto ao que é certo ou errado fazer, entendes o conceito de Justiça.”

Lúcifer ausentou-se por um tempo e quando voltou, estava acompanhado de uma legião de construtores, todos vestidos com os mantos e aventais da ordem do alojamento de Havillah.

Os construtores se detiveram às margens do Rio, enquanto Lúcifer veio até Adão.

“Preciso cobrir-te os olhos” Disse Lúcifer segurando uma tira de pano nas mãos.

Adão virou de costas e Lúcifer o vendou.

“Adão, solenemente declaras que é de tua própria vontade conhecer os mistérios de nossa ordem e que te comprometes a pagar o preço que de ti será exigido por isso?”

“Sim.”

Lúcifer envolveu o pescoço do homem em uma corda grossa.

Segurando a corda com firmeza, conduziu o homem até o alojamento às margens do Eufrates.

Com um cajado bateu três vezes no solo.

Adão ouviu uma voz ao longe que dizia, “Quem se aproxima?”

“O homem, vindo do ocidente em busca da luz que nasce no oriente.” Disse Lúcifer.

“Já que a luz é o objeto de sua busca, que continue seu caminho rumo ao oriente. No entanto, é meu dever informá-lo que precisa antes ajoelhar-se e ajuramentar-se conosco de que jamais revelará os mistérios que lhe tenham sido ou serão confiados.”

A este ponto, um estrondo ouviu-se nos céus. Era Kundalini que descia sobre a horda e com a força das suas asas atirava para longe os espíritos ao redor do homem.

No seu pescoço, trazia um colar com as pedras de luz que haviam sido ofertadas por Yahweh a Adão e Lilith quando deixaram sua morada celestial para virem a esta Terra.

Na presença dos dissidentes, as pedras emitiram um brilho ofuscante e ardente. Mas, isso não os impediu de lançarem-se sobre o dragão com suas unhas e dentes, rasgando-lhe as asas.

Adão, assustado com tudo que ouvia, tentava arrancar a venda de seus olhos, mas ela havia de tal modo sido atada que ele não conseguia desvencilhar-se dela.

Tamanha era a força e o número de anjos decaídos que se atiravam contra o dragão, arrancando-lhe as asas a mordidas e unhadas e sob o releixo cortante de suas ferramentas e armas, que, por um instante, ele achou que aquele seria seu fim.

Mas a despeito da dor, não parou de atacar os estrangeiros até que os expulsasse todos do Jardim.

A este ponto, Adão conseguira arrancar sua venda e a corda de seu pescoço.

“Estás louco?” Gritou o homem contra o dragão.

“O que fazias com estes estrangeiros?” Disse a serpente com dificuldade.

“O que fazes tu aqui? Primeiro mataste a minha mulher e agora feriste meus companheiros. Tua presença não é bem-vinda neste Jardim.”

“Eles não são teus companheiros, Adão. Não acredites em nada que sai de sua boca.” Implorou a serpente.

“Não acredito em nada que sai da tua.” Gritou o homem com grande cólera.

“Vim para dizer-te que estavas certo sobre mim. Fui enganado por esses que chamas de companheiros e sei que causei grande dano à harmonia deste paraíso, tornando-me indigno de aqui voltar a colocar os pés.

Sei que tens muitas dúvidas e muito do que precisas saber está nestas pedras que vos foram ofertadas, a ti e à mulher, quando viestes a este Jardim.

O Criador deu-me ordem de entregá-las a ti quando viesses a mim em busca de entendimento. Mas tu nunca o fizeste.

Talvez sejas mesmo merecedor de toda a desgraça que se abate sobre ti.”

Kundalini arrancou o colar de seu pescoço e lançou-o nos peitos nus do senhor daquele Jardim.

Virando-se, caminhou desolado até a ponte. Ele estava cansado e faminto e o cheiro de sangue que lhe escorria do que restara de suas asas lhe confundia os sentidos.

Quando entrou no bosque escuro na outra margem do Rio, suas pernas estavam fracas e a grande serpente tombou ao pé de uma árvore de raiz rasa, que caiu sobre as outras com o seu peso.

No despencar da árvore, um esquilo caiu ensanguentado nos lábios entreabertos do dragão.

O gosto enferrujado daquele sangue estranho pareceu-lhe de repente tão saboroso ao paladar que Kundalini dilacerou as carnes do pequeno roedor com algumas poucas mordidas.

Animal algum jamais havia devorado outro, porquanto, até então, eles se alimentavam da ração de ervas, frutos e sementes que o homem e a mulher haviam sido instruídos pelo Criador a lhes ofertar.

Mas Kundalini já não confiava mais no homem e na mulher, que a seu ver pareciam ter perdido a razão.

Levantando-se, soltou um urro que espantou as aves que pousavam nas árvores ao redor e saiu em busca de novas presas.

No Jardim, o homem recolheu as ferramentas que os estrangeiros haviam deixado cair às margens do Rio e voltou com elas para o lugar onde construía o altar.

Colocou no pescoço o colar que Kundalini havia lançado contra ele ainda sem saber ao certo como aquelas pedras que agora repousavam sobre seu peito, poderiam responder todas as perguntas que lhe consumiam a alma.

De algum modo alheio ao seu entendimento, o brilho das pedras iluminou-lhe a mente sobre o uso que deveria fazer daquelas ferramentas, como se elas lhe fossem muito familiares.

Em pouco tempo, o altar fora concluído com grande beleza de detalhes. E sobre ele, Adão depositara as pedras de luz.

Erguendo os braços, clamou, “Pai, ouve as palavras de minha boca. Pai, ouve as palavras de minha boca. Pai, ouve as palavras de minha boca.”

Uma prece que só seria atendida quinhentos invernos mais tarde.


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