3 de dezembro de 2016

Capítulo 19: O Fluxo de Sangue

03 dezembro Escrito por Eliude Santos , Comente aqui
Lilith corria nua e descalça pela floresta. Diferente do Jardim, as árvores por ali haviam crescido sem cuidado, galhos secos rasgavam sua pele, cardos e espinhos perfuravam-lhe os pés. O cansaço, o suor e o ardor dos ferimentos eram sensações novas, mas nada lhe assustava mais do que aquela seiva viscosa e escura escorrendo-lhe por entre as pernas. 

Ela segurava a genitália ensanguentada enquanto gritava pelo dragão.

Desde que deixaram o Jardim, seu esconderijo e abrigo havia sido uma caverna às margens de um dos braços do Pison. A comida tornara-se escassa após os primeiros invernos, o que fazia com que a mulher e a serpente tivessem que se deslocar cada vez mais floresta adentro para encontrar frutas e sementes que lhes aplacassem a fome.

O corpo de Lilith estava mudando rapidamente desde que comera do fruto proibido. Seus seios haviam entumecido e ganhado uma sensibilidade que antes não tinham, por vezes até lhe doíam os mamilos, como se a pele fosse rasgar a qualquer momento; seus quadris também tinham ganhado mais volume, de modo que ela ficava cada vez mais diferente do irmão que abandonara no Éden. Agora, pelos cresciam nos lugares mais inesperados e, por vezes, fluidos escorriam-lhe da genitália.

No entanto, no décimo segundo solstício desde que comera do fruto proibido, aquele fluido desceu escuro e mais volumoso. E, sem saber o que era tudo aquilo, sentiu que estava para morrer e correu em desespero.

Todas essas mudanças haviam afetado o humor da mulher, de modo que nos momentos em que sua alma ficava mais amarga, culpava a serpente alada pelo estado miserável em que se encontrava.

“Tu me mataste. Tua língua afiada me enganou e eu pequei contra a vontade do Criador. Se eu tivesse ficado no Jardim, não estaria sofrendo todas estas dores. 

Meu útero está apodrecendo e com ele, todo o meu corpo definhará até que eu volte ao pó, de onde fui criada.” Disse ela, apontando as mãos cheias de sangue para a serpente alada que encolhia-se de fome no canto da caverna.

Kundalini ergueu a cabeça e, vendo a mulher ensanguentada e suja, deitou-se novamente. Estava faminta e cansada demais para responder qualquer coisa.

“Não farás nada? Não vês que estou morrendo?” Insistiu a mulher como se exigisse do gigantesco réptil uma reparação por ter-lhe infligido tão irremediável mal.

“Acalma-te. Se o fluxo que ora escorre-te por entre as pernas é o que suspeito ser, decerto que teu ventre não está apodrecendo. Ele apenas deve ter gerado uma semente que não foi germinada e agora está sendo expelida para que, renovando-se, possa gerar uma nova esperança de vida.”

A sabedoria de Kundalini já não tranquilizava mais a mulher.

“Leva-me de volta ao Jardim. Preciso dizer ao homem para jamais comer daquele fruto.” Implorou Lilith.

“O homem fará o que sua consciência lhe disser para fazer. Agora limpa estas lágrimas e aquieta-te. Certamente morrerás, mas não hoje.”

Lilith saiu correndo pela margem do rio. Estava de tal forma irritada com o descaso da serpente que por um instante esqueceu do fluxo de sangue que até então julgava ser uma punição do Criador por seu ato de rebeldia. 

No caminho, encontrou dois homens vestidos de sol, parados no ar, como se fossem pássaros sem asas.

Ela caiu por terra e clamou.

“Perdoa-me Senhor, pois duvidei das palavras de Tua boca e comi do fruto que me havias proibido de comer.” 

“Comeste do fruto do conhecimento e, como recompensa pelo teu pecado, colheste a morte e a dor de viver neste mundo escuro e triste. 

No entanto, este sangue que te enche as veias e que transborda de teus lugares sagrados permite que sejas fértil como os deuses, gerando vida que haverá de se espalhar para além dos limites de teu antigo lar, enchendo a Terra, conforme te ordenou o teu Senhor.”

“Como haverei de gerar vidas se o homem não comeu do fruto e permanece infértil no Jardim?”

“O tempo responde todas as perguntas. Não convém que te antecipes acerca do que não depende de ti para ser resolvido. 

Diz-nos. Quando comeste do fruto do conhecimento, sentiste algum pesar na alma?”

“Não, meu Senhor. Passado o amargor da primeira mordida, senti um prazer indescritível, como se estivesse desabrochando ou despertando de um profundo sono.”

“Então por que te desculpas, mulher?”

“Por ter blasfemado contra Ti, meu Senhor. 

Eu estava confusa, porquanto havias dito que eu certamente morreria quando comesse daquele fruto. Mas ao invés disso, senti uma expansão da mente quando a seiva quente correu sob a minha pele como um rio de águas violentas. Naquele instante, meu corpo era o próprio rio. Era como se eu não estivesse em mim.”

“E não é isso uma pequena morte? Afinal, a morte do corpo acontece quando o espírito que o vivifica dele se desprende; ao passo que, a morte do espírito ocorre quando ele se desprende da fonte de sua própria existência. De modo que, morreste espiritualmente quando aqui nasceste, porquanto toda morte é um renascimento e todo nascimento é uma morte.”

“Mas se tal desprendimento era necessário, por que me advertiste a não comer do fruto? O que há de errado em experimentarmos tamanho gozo? 

E, se não estou morrendo, o que é este fluxo que me escorre por entre as pernas?”

“Vejo que estás ávida por entendimento, mas não me cabe responder perguntas cujas respostas já germinam dentro de ti. 

Quanto ao fluxo, sentes alguma dor?”

“Não, meu Senhor. Senti algumas dores antes, mas agora, apenas um desconforto.”

“Esta é a maldição que o Senhor teu Deus te deu por desobedeceres à palavra de Seu mandamento. Este fluxo há de descer cada vez que teu ventre produzir semente e ela não for fecundada, afinal a primeira ordem que te deu o Criador foi a de que te multiplicasses, e quando não o fazes, pecas contra a Sua vontade.

Fecundando tal semente, no entanto, carregarás com dores o rebento até que ele rasgue seu caminho para o mundo, causando-te ainda mais dor.

Porquanto há três maneiras de se ganhar conhecimento neste mundo: pelo prazer, pelo suor ou pelo desconforto. Sendo a última, de todas, a mais eficaz.

E passadas todas as dores e todas as oportunidades de aprenderes com elas, retornarás teu corpo à Terra que te gerou e experimentarás a morte de fato.”

“Tal punição parece-me injusta, meu Senhor, visto que sem comer de tal fruto, a obra da Criação jamais seria concluída. De modo que, o que eu fiz pode ter sido contra Teus mandamentos, mas certamente era de acordo com Teus planos e vontade. E, se fiz Tua vontade, por que haveria de merecer alguma punição?”

“O fruto de fato te abriu os olhos, Lilith. És agora uma de Nós.”

Um dos personagens de luz tomou nas mãos um dente-de-leão e soprou-lhe na face. As plumas acariciaram seu rosto de um modo tão familiar que por um instante, uma onda de calor lhe tomou todo o corpo, que tremeu e estremeceu diante daqueles anjos de beleza descomunal.

Num abrir e fechar de olhos, a mulher experimentou um “eco” de sua eternidade soando tão vividamente em seu coração quanto o sabor amargo do fruto que ainda sentia em sua boca todas as manhãs ao acordar.

Por um instante, ela se viu com um corpo de luz como o daqueles seres parados no ar diante dela. Seu coração palpitou acelerado e ela caiu por terra.

“Levanta-te, mulher.” Ordenou o anjo.

“O que foi isto que vi?” Disse ela assustada.

“Talvez algo em tua essência relute contra este estado decaído em que te encontras.” Explicou a entidade.

“Quem és tu?” Perguntou a mulher confusa.

“Sou teu irmão.” Respondeu Lúcifer, descendo e tocando o chão primeiro com a ponta de seus pés e depois assentando firmemente os calcanhares.

A luz ao seu redor diminuiu e a mulher viu que estavam vestidos.

“O que é isto que usais sobre vosso corpo?” Perguntou ela curiosa.

“Um manto e um avental: símbolos do sacerdócio que possuímos.” Respondeu Samael, que também desceu logo em seguida.

“E tu, quem és?” Perguntou a mulher, maravilhada com aquela visão.

“Sou o teu mais querido irmão.”

“O que é este sacerdócio que possuís?” 

“Sacerdócio é o poder dos deuses, a inteligência máxima que permite que anjos como nós construam mundos como este; o segredo dos cálculos perfeitos que transmuta a matéria e preenche universos sem fim.” Explicou Lúcifer.

“Estás com fome?” Perguntou Samael.

“Sim, meu senhor.” Respondeu Lilith.

Abaixando-se, Samael pegou duas pedras e convencendo certos elementos naquelas rochas a dissociarem-se dos demais de modo que o caos fosse criado entre eles, deu ordem àqueles elementos que selecionara para organizarem-se de novo modo e, batendo o pó do que restara das duas pedras, mostrou-lhe dois pães ainda quentes.

“Se nos ouvires, nunca terás fome novamente.” Disse Samael, oferecendo os pães para a mulher.

Lilith nunca havia provado pães como aqueles antes. Lembrou-se do dragão e guardou um deles consigo.

Lúcifer aproximou-se e cobriu os olhos da mulher com suas mãos. 

Lilith gritou.

“O que houve?” Perguntou Samael. “Onde estás?”

“Estou à beira de um abismo profundo, e as rochas se desprendem aos meus pés.” Gritou Lilith com as mãos estendidas e sem firmeza nos pés.

“Não temas. Pula e nós te ampararemos.”

Lilith ouvia a voz de Samael como se ele estivesse diante dela, mas ela não o via. Estava aflita, porquanto se permanecesse ali, cairia naquele abismo escuro que se abria aos seus pés. 

Confiando na voz daquele espírito familiar, ela pulou. Lúcifer tirou as mãos de seu rosto e ela caiu nos braços de Samael. E sorriu.

“Como posso adquirir tal conhecimento?” Perguntou Lilith abismada com as maravilhas que vira.

“Sempre tiveste este conhecimento, minha irmã. Ele foi roubado de ti. Precisas somente lembrar-te dele, e ele será teu novamente. 

Há uma árvore no centro do Jardim que pode sanar todos os danos que tua vinda para este mundo causou ao teu espírito. Se comeres do fruto daquela árvore, gozarás de toda a felicidade que procuras.” Explicou Lúcifer.

“Não sei como voltar sozinha ao Jardim. A serpente que me trouxe a estas terras sobre suas asas se recusa a levar-me de volta.”

“Lava-te nestas águas e volta ao teu abrigo. Mantém este nosso encontro em segredo e em breve viremos a ti novamente.”

Lilith banhou-se nas águas do Pison e voltou ao encontro do dragão. Trouxe consigo o pão de mel que lhe fora ofertado por Samael.

“Aceita minhas desculpas e sacia tua fome.” Disse a mulher, ofertando o pão ao dragão.

“O que é isto?” Disse Kundalini, rebatendo com suas asas o torrão de barro que a mulher trazia consigo em suas mãos.

“Eu não entendo”. Disse a mulher perturbada. 

“Eu que não te entendo.” Irritou-se o dragão.

Ele levantou-se com algum esforço, foi até a entrada da caverna. Abriu suas enormes asas furta-cor e num salto, voou para longe.


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