22 de janeiro de 2017

Capítulo 26: As Noites de Pandora

22 janeiro Escrito por Eliude Santos , Comente aqui
As sete serpentes que se enroscavam entre os cabelos e pelo corpo de Medusa punham-se em posição de ataque e sibilavam ariscamente na presença do dragão, que respirava com dificuldade no fundo da caverna dos símios.

Com sua calda, Kundalini chicoteou a mulher, que caiu por terra. Os símios se agitaram e pularam sobre a fera.

Na queda, os cordões de prata desprenderam-se, fazendo com que Samael e a legião de espíritos que se apossava do corpo de Medusa fossem atirados para longe; as serpentes espalharam-se pela caverna, e a escuridão da cegueira cobriu novamente os olhos da mulher.

Erguendo-se, ela estendeu os braços e suas serpentes voltaram uma a uma a enroscarem-se pelo seu corpo. 

O barulho dos golpes era assustador. Guinchados e rugidos, corpos sendo lançados contra a rocha e rolando pelo chão, ou sendo esmagados e dilacerados na escuridão de sua percepção, de modo que não dava para saber quem triunfava sobre quem.

“Parem!” Gritou a mulher.

Mas sua voz não foi ouvida.

Um dos símios agarrou sua mão e tentou arrastá-la para longe, mas ela recusou-se a ir com ele.

O efeito das ervas de cheiro havia passado e Samael não conseguia ser ouvido pela mulher, nem podia voltar a comandar seu corpo, nem tampouco fazê-la voltar a enxergar.

Finalmente a caverna fez silêncio. Ela ouviu passos correndo em sua direção e passando apressadamente por si. Sentiu o pelo grosso e ensanguentado dos símios raspando em seus braços enquanto corriam para longe.

Ouviu um movimento sinuoso aproximando-se, como se um grande corpo se arrastasse no chão frio.

Seu rosto aqueceu com o bafo pútrido do dragão que parecia preparar-se para um último golpe mortal enquanto rugia diante dela. 

As serpentes que lhe rodeavam puxavam-na para trás, como que se armando em solavanco para porem-se em posição de ataque.

“Kundalini, por que me abandonaste?”

Um rugido ainda mais forte foi ouvido. As serpentes sibilaram de volta.

A mulher ergueu a mão para tocar o rosto do dragão. Ele sacudiu a cabeça como que rejeitando o seu toque. Ela insistiu. 

Aproximando-se, acariciou-lhe o peito e o dorso. Sentiu as protuberâncias do que restara de suas asas e puxou a mão num ímpeto de surpresa e horror.

“Quem fez isto contigo?”

Kundalini continuava em silêncio.

Medusa não sabia que aquelas mutilações haviam sido infligidas por Lúcifer e seus anjos quando o dragão tentou impedir que Adão se ajuramentasse com eles. Nem Kundalini poderia acusar seus algozes. De fato, tão machucada estava sua alma, que só lhe restava fugir ou atacar quem cruzasse seu caminho de fuga. 

A mulher entendeu que, assim como acontecera com os outros animais, o dragão havia perdido a voz e a sensatez. Ou talvez as bestas nunca tivessem de fato falado e tudo o que ela ouvira antes fora fruto de sua imaginação. 

O fato é que agora o dragão deixava-se guiar pelo único instinto selvagem que aquele mundo escuro e triste parecia impor sobre todas as criaturas: o medo. 

“Que Ser sádico é esse que cria um mundo onde tudo nos causa dor e sofrimento? Que Ser sádico é esse que se diz nosso Pai e nos abandona neste inferno onde vivemos com medos e incertezas que se apossam de nossas almas sufocando-nos em tamanha violência e horror?

Que Ser covarde é esse que se esconde na luz para não ser visto e que cega aqueles que se atrevem a falar-Lhe face a face? Se Ele é luz e tudo o que Lhe faz oposição é trevas, já não sou mais dia, pois o vazio que me sufocava escapou para fora de mim e agora tudo é escuridão. E onde há escuridão, tudo se prova na ponta dos dedos.”

E com a suavidade de suas mãos, acalmou o coração da besta selvagem, que a conduziu sobre o seu dorso para fora da caverna. Os símios alvoroçaram-se novamente.

“Não vos perturbeis.”

O dragão arrastou-se por entre eles.

Voltaram ao lugar onde a mulher deixara as embarcações com as estátuas que ela havia esculpido sob a influência das Górgonas e da legião de espíritos que de seu corpo haviam-se apossado.

E pela terra e através das águas dos grandes rios, levaram aquelas imagens de escultura para todos os recantos da Terra.

Fazendo uso das ferramentas que, sob juramento, haviam sido ofertadas pelos construtores, Medusa construiu templos para aquelas imagens esculpidas à semelhança do que há em cima nos céus e embaixo na Terra, e plantaram ervas aromáticas para purificarem seus altares.

A mulher aspergiu o sangue de sua fertilidade diante daqueles deuses de pedra como oferta suave, enquanto, sobre o altar, Kundalini deitava-se com as sete serpentes que Medusa carregava consigo a fim de que concebessem e deitassem ovos. 

Chegando o tempo da desova, Medusa desceu com elas a uma fenda profunda nos confins da Terra, conforme havia sido instruída pelas entidades etéreas, e ali depositou as primícias de suas crias. 

As chuvas cessaram e Medusa arrastou a rocha que cobria a fenda estreita que dava para o covil e, do alto, lançou leitões selvagens que foram prontamente atacados e devorados pelas serpentes.

No outono, ela desceu ao covil levando javalinas como oferta para de lá trazer os restos dos que haviam sido lançados do alto. 

Com um pilão feito em pedra, macetou aqueles ossos até que se tornassem um pó miúdo. Sobre ele, aspergiu o sangue dos seus ciclos e lançou aquela mistura sobre as sementes que plantara para que houvesse fartura em suas colheitas.

E tudo isso fez na escuridão de sua cegueira.

Mas, passados alguns invernos, naquela rotina exaustiva que se obrigara a levar, ela percebeu que fugira de um senhor para tornar-se serva de outro. E, descendo ao covil, despiu-se das serpentes que sempre carregava consigo, e disse, “Se de dor e escuridão são feitos os meus dias, com dor e escuridão dispo-me desta pele antiga para vestir-me de breu e de sangue. E a noite que há em mim engolirá a infância de meus devaneios e não mais deixarei me levar pelo vento de qualquer doutrina, pois a cegueira me fez ver com uma clareza que nunca antes tive.”

Usando espinhos finos de cacto atados a um graveto, furou cada poro de sua pele lavando o sangue carmesim com uma resina de pinho negra, índigo e carvão.

Deitou-se repetidas vezes sobre uma cama de espinhos resinados para gravar de negro a sua pele onde suas mãos não alcançavam.

De cócoras, tremendo de dor, esperava que os símios catassem todos os espinhos antes de repetir o ritual, até que a dor lhe fizesse perceber cada recanto do seu corpo.

Com fogo, queimou os cabelos brancos de sua cabeça até que não lhe restasse mais fio algum. E besuntou com resina o escalpo chamuscado.

Coberta de resina, carvão e sangue, chorou por seis longas noites, pois para ela os dias já não existiam.

No início da sétima longa noite, a anciã desceu às águas do Pison e banhou-se, emergindo com uma pele nova e bela, negra como a turmalina.

Em meio à escuridão, disse para si mesma, “Lilith viveu quinhentos e poucos anos à sombra de um homem e um dragão, sonhando com a liberdade e enchendo-se de desejos que jamais seriam saciados; e na infusão das ervas aromáticas, fez-se Medusa para viver outros quinhentos e tantos anos à sombra de delírios e serpentes, quebrando pedras e erguendo altares e enchendo-se de dores e dissabores; hoje, das águas do Pison, surjo Pandora, para ser a sombra que, sem luz, cobre os homens e as bestas em seu sono. E quantas outras longas noites haverei de viver como Pandora, pouco me importa, pois o que é a vida senão um devaneio de primatas prepotentes?”

Naquela noite, Pandora não fez o unguento de ervas de cheiro nem os incensos que as Górgonas lhe haviam instruído a fazer. Nem na noite seguinte. 

Na terceira noite, Samael veio ter com ela.

“Por que foges de nós?”

“Não fujo de ninguém. Como se pode fugir do que não há? Não passas de um devaneio de minha mente e estou farta de devaneios.”

“Se eu não existisse, como poderia estar falando contigo?”

“Estou falando comigo mesma, como sempre estive desde que vim para este mundo escuro e triste. E por muito tempo rejeitei minha solidão, embriagando-me em fantasias e me deixando enredar pelos devaneios desta embriaguez; mas a cegueira me fez sóbria e eu finalmente pude me enxergar com clareza.”

“Estás louca. E tudo isto que fizemos juntos? Erguemos templos e embarcações, cruzamos as águas e arrastamos estátuas colossais por vales e montanhas e fizemos férteis estas terras secas. Ajudamos os símios a erguerem-se sobre a terra como homens e demos-lhes armas, e fizemos deles caçadores e senhores de outras bestas do campo. E nada disso teríamos feito se não fosse pelo poder do conhecimento que sob juramento compartilhamos contigo.”

“Se estou de fato louca ou se finalmente recobrei a sanidade, nunca saberei. O que sei é que ergui templos e embarcações com a força de meu braço e a engenhosidade de minha mente. Em minha insegurança atribuí tal engenhosidade a entidades etéreas que em minha própria mente criei. E fantasiei juramentos para me acorrentar a esta ilusão que alimentei em minha mente a fim de justificar minha existência e consciência.

Devido a essa engenhosidade, ergui embarcações e cruzei as águas dos Rios e arrastei estátuas colossais por vales e montanhas com a ajuda de grandes bestas do campo e do ar que, por minhas habilidades, capturei e domei a fim de que me servissem em tais empreendimentos. 

Destas terras secas, fiz um oásis com hortos e pomares a fim de saciar minha fome e não depender da caça ou de que árvores frutíferas brotassem naturalmente na floresta e descessem seus galhos à altura de minhas mãos para que eu, de seus frutos, me alimentasse. 

Vi que os símios se assemelhavam a mim e os domestiquei e fiz com que se erguerem sobre a terra como homens e dei-lhes armas para caçarem suas próprias presas a fim de que eu não me tornasse sua serva, tendo que lhes prover alimento; e se haverão de se tornar senhores de outras bestas do campo, só o tempo poderá dizer.

O fato é que não sei como vim parar aqui, não sei por que sou diferente dos outros animais, nem sei quanto tempo ainda terei nesta Terra. E durante muito tempo isso me incomodou ao ponto de entregar-me a esses delírios em busca de algum entendimento.”

“Eu sou teu senhor. Não podes quebrar tua aliança comigo.”

“Havia no Jardim onde vivi os dias de minha infância, se é que tal lugar não foi outro fruto de minha imaginação, um homem que dizia ser meu senhor e isso me incomodava profundamente. Fugi de lá para não ter senhores. Sou senhora de mim.”

“Não terias fugido se não tivéssemos tentado o dragão a te convencer de que deverias comer do fruto proibido para conheceres o bem e o mal.”

“Serpentes não falam, como poderia aquele animal convencer-me de qualquer coisa. Comi do fruto porque eu quis.

Estava tão angustiada e sozinha que precisava encontrar algo para fazer naquele lugar. Como qualquer criança inocente, fantasiei.

Disse para mim mesma que tinha um Pai; mas, o fato é que nunca O vi porque talvez Ele só existisse em meus delírios. 

De todas as árvores eu comia livremente, mas ao aproximar-me daquela de folhas vermelhas, a serpente que descansava em seus galhos sentiu-se ameaçada e sibilou, e em minha mente infantil eu coloquei palavras em sua boca. Palavras que, a princípio me proibiam expressamente de aproximar-me do fruto e posteriormente questionavam minha própria proibição.”

“E o sangue? Acaso possuías sangue antes de comer do fruto?”

“Nunca derramei sangue no Éden, pois nunca me cortei ou feri. Não haviam espinhos no Jardim. 

Quanto ao sangue da fertilidade, algum animal do campo já nasce fértil? Tive que esperar o primeiro sangue para que o fluxo começasse a descer em seus ciclos, como qualquer outro animal do campo.”

“Tu me amas. Não podes negar este sentimento.”

“Sim, eu te amo. Afinal, és minha criação mais perfeita. Em oposição ao Pai ausente e ao homem dominador, és o amante inatingível. Não posso te tocar, não posso deitar-me contigo, no entanto, estás sempre por perto para me fortalecer nos momentos de fraqueza.

Mas eu cresci e amadureci e não há mais espaço em meus dias para essas fantasias de criança.”

Samael não insistiu. Não havia nada a dizer. Ele retirou-se.

Pandora sentiu-se livre como nunca antes havia se sentido.

Ela ajuntou provisões e partiu a ermo, na esperança de encontrar o assentamento de Adão, em algum vale ou caverna a caminho do Éden.

Sua cegueira em nada lhe impedia. Tinha, na verdade, um senso ainda maior de direção e cuidado agora.

Ouviu a voz de um homem. Sabia que estava próxima do assentamento de Adão.

Um jovem pastoreava ovelhas ali perto e parecia estar sozinho.

Ela esperou o tempo esfriar e as ovelhas aquietarem-se para aproximar-se. Sabia que era noite e ouvia o ressonar do moço que dormia junto a um regato aonde levara as ovelhas para beber e pastorear.

Aproximando-se, passou levemente as mãos pelo corpo do homem. Ele tinha ombros largos e parecia ser mais alto que ela. As carnes do peito eram firmes e um caminho de pelos descia-lhe até o umbigo e de lá até uma espécie de avental que usava para cobrir a nudez.

Ela levantou-lhe o avental e subiu sobre o rapaz, que acordou assustado.

Ela escondeu-se rapidamente.

Ele levantou-se intrigado e olhou em derredor. Não encontrando nada, voltou a dormir.

Ela esperou um pouco e aproximou-se novamente.

Desta vez, ele parecia estar à sua espera e agarrou-lhe pelo braço.

“Quem és?”

“Sou Pandora.”

“És um demônio?”

“Se fosse um demônio, poderias deter-me, segurando-me pelo braço?”

“Por que és escura como a noite?”

“Não gostas?”

“Nunca vi tamanha beleza.”

“Gostaria de dizer o mesmo.”

“Não gostas de minha aparência?”

“Não é isso. Sou cega. Meus olhos não veem.”

“O que fazes por aqui? De onde vens?”

“Já te deitaste com uma mulher?”

“As únicas mulheres que conheço são minha mãe e minhas irmãs.”

“Queres deitar-te comigo?”

“Não me leves a mal. Temos leis muito severas em minha casa.”

“Esta é tua casa?”

“Moro num vale, a leste daqui.”

“Então não estás em casa. As leis deste lugar são diferentes das leis de tua casa. Aqui, as proibições que os teus senhores te impõem não tem valia alguma.”

“Como sabes?”

“Porque eu estava aqui antes de chegares. Conheço as leis deste lugar.”

O jovem estava confuso. E seu desejo tornou-se aparente. 

Pandora desceu sua mão até o avental do moço e desatou-lhe o nó. O avental caiu por terra e ela caiu sobre ele com mãos e língua e dentes e unhas.

Como uma aranha negra, ela o segurou pelo pescoço até que ele sufocasse em gozo.

Ela levantou-se, espalhou as ovelhas e seguiu seu caminho.

O jovem ficou estendido no chão frio.

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