27 de janeiro de 2017

Capítulo 27: O Pastor de Ovelhas

27 janeiro Escrito por Eliude Santos , Comente aqui
Abu acordou assustado. Olhou em derredor e já não havia nenhuma ovelha por perto. Saiu correndo pelo campo, berrando seus nomes em desespero.

Estava desolado. Como explicaria ao seu pai o sumiço do rebanho? 

Ele voltou para casa cabisbaixo. Sua mãe foi correndo ao seu encontro. Ele nunca se ausentara por tanto tempo.

“Meu filho, o que houve?”

“Fui atacado por bestas selvagens à noite e, enquanto pelejava por minha vida, descuidei-me do rebanho, que se dispersou e fugiu.”

“Estás ferido?”

“Estou bem. O Senhor estava comigo e livrou-me das bestas-feras. 

Arranharam-me as costas e machucaram-me de leve o pescoço, vês? Mas correram para longe ao sentirem a força de meu cajado.”

Ele nunca mentira para seus pais antes. E deveria estar sentindo algum tipo de pesar por tê-lo feito agora — pelo menos, isto era o que cobrava de si mesmo — mas o fato é que não conseguia esquecer aquela bela mulher que como uma visão noturna deitara-se sobre ele na noite passada. O perfume doce dos seus unguentos, o negror macio de sua pele, suas mãos firmes envolvendo-lhe o pescoço enquanto uniam-se numa só carne. A sensação de uma pequena morte no momento de maior prazer.

Onde ela estaria agora? Quem era aquela mulher que despertava seus desejos mais secretos? E por que ela era tão diferente? Ele não conseguia pensar noutra coisa.

Seu pai ofereceu-se para acompanhá-lo até o lugar onde o rebanho dispersara, mas ele disse que a responsabilidade de encontrar os cordeiros era somente sua, afinal, por seu descuido eles haviam fugido.

Naquela noite em volta da fogueira, aos irmãos menores, contou histórias de monstros ferozes de um só olho, negros e peludos como a noite, que devoravam as almas desafortunadas que cruzassem seu caminho. Fez-se de herói, dizendo como, com a força de seu braço, quebrara a mandíbula de um deles, que em muito se assemelhava à boca de um leão, enquanto o outro fugira amedrontado.

Abel ouvia tudo com olhos cintilantes. Queria ser um herói como o irmão. 

Caim acordara no meio da noite chorando, e correra para o leito dos pais. Naquele dia, ele decidira que jamais seria um pastor de ovelhas. Ficaria em casa com a mãe e as irmãs cuidando das hortas e pomares. Era forte e elas precisavam de alguém para arrastar o arado agora que seu pai se dedicava à construção.

E assim foi com os outros filhos e filhas de Adão e Eva, cada um reagindo a seu modo àquelas histórias fantásticas contadas por Abu.

Ima, Luluwa e Aquélia aninharam-se no leito de seu irmão, porquanto se tais monstros aparecessem em seu assentamento, ele as defenderia com bravura.

Havan e Azura fizeram vigília e colocaram armadilhas ao redor do assentamento.

Abel também fez vigília e guardou os irmãos pequenos e de colo, como faz um bom pastor.

Abu riu-se em seu coração daquele alvoroço em sua casa. Mas logo veio a lembrança de que Pandora não viria ao seu leito aquela noite e suspirou cabisbaixo.

Adão e Eva procuraram acalmar seus filhos. Adão não acreditava no que lhes dissera Abu, mas não entendia por que ele não lhes confessava o que de fato acontecera. Eva estava mais preocupada com a segurança de todos, caso aquele relato se provasse verdadeiro.

Na manhã seguinte, Abu foi atrás das ovelhas perdidas e Adão subiu ao monte em busca de mais luz e entendimento sobre os eventos incomuns que haviam recaído sobre seu lar.

Enquanto Adão clamava ao Pai aspergindo o sangue de uma pomba sobre o altar, porquanto não havia cordeiros para o sacrifício, um estrangeiro aproximou-se.

“Que belo altar, este que edificaste aqui, Adão. Quantos escravos usaste para arrastar estas pedras?” 

“Escravos?” 

“Não tens nenhum?” 

“O que é um escravo?” 

“Alguém cuja liberdade compraste com dinheiro, ou tomaste pelo fio da espada.”

“E por que eu faria tal coisa?”

“Porque esta é a essência da natureza humana: se não exercemos controle sobre outros, somos controlados por eles.

Dá-lhes um teto e um pouco de comida e proclama-te seu senhor, e em troca terás poder e controle sobre o tempo de suas vidas, que é o tesouro mais precioso que um homem pode ofertar a outro.”

“Não conheço outros homens por estas terras além de meus filhos.”

“Aos filhos, não chamamos de escravos; chamamos de servos. Tenho muitos em meu regaço.”

“E como os conseguiste?”

“Pelo poder de minha palavra, que é mais valiosa que dinheiro e, das armas, a espada mais afiada.”

“Em que te servem esses homens?”

“Ajudam-me no pastoreio.”

“És um pastor de ovelhas? Tenho um filho que cuida dos nossos rebanhos: é um pastor, como tu. Mas escaparam-lhe todos os cordeiros por um descuido e ele foi fazer reparação de seu erro.”

“Sim, sou um pastor. E se me escapam também vou atrás, pois sou um pastor zeloso.”

“E onde está o teu rebanho agora?”

“Meu rebanho são os homens da terra.”

“Não compreendo.”

“Homens são como ovelhas. Fazem o que veem os outros fazer, pois precisam reconhecer a si mesmos nos que estão ao seu redor. Já viste o quanto berra uma ovelha desgarrada?”

“Sim, ficar sozinho é de fato assustador. 

E o que fazes com esses homens uma vez que entram em teu redil?”

“Faço deles meus servos. E se eu precisasse edificar um altar como este, eles o fariam por mim.”

“Se fizessem o trabalho por ti, não seriam eles os donos do altar?”

“Uma vez que os planos, as ferramentas, os recursos, as instruções e o próprio assentamento do altar seriam meus, que autoridade teriam eles de reclamar qualquer parte na posse de tal edificação?”

“Pelo suor do próprio rosto angaria-se o próprio sustento, pelo suor do próprio rosto edificam-se os próprios abrigos e lugares de adoração, pelo suor do próprio rosto pode-se dizer que algo é de fato seu.”

“Vê-se logo que és servo e não senhor. Quem é o teu mestre.”

“Meu Mestre é o Altíssimo.”

“E o que fazes neste altar cujos planos, ferramentas, recursos, instruções e o próprio assentamento foram-te dados pelo teu Senhor, mas que pelo suor de teu rosto tens a ilusão de que seja teu?”

“Clamo por mais luz e entendimento.”

“E achas que podes exigir comida de teu Senhor somente porque estais com fome? Não se tornaria Ele o teu servo se a cada reclamação tua, Ele mudasse o curso de Seus afazeres somente para te satisfazer?”

“Ele me colocou aqui para que eu exercesse domínio sobre as bestas do campo e enchesse a Terra. E disse que voltaria com mais instruções. Ergui este altar para que Ele tivesse onde descansar Seus pés quando viesse falar comigo. Sou Seu filho e é natural que os filhos recorram ao Pai em tempos de necessidade.”

“Foste provisoriamente liberto de tua servidão e já queres voltar para baixo das asas de teu Senhor? Vê-se que nasceste para isso. Não passas de uma ovelha desgarrada berrando sozinha nas montanhas.

Mas sei exatamente do que precisas.”

“O que pensas que preciso?”

“Precisas de religião.”

“O que é isso?”

“É como um cabresto que pomos nas ovelhas para que não escapem e se percam. A este cabresto atamos uma corda grossa e firme, que são as leis e rituais de aliança. E tal corda é fixada a uma estaca junto à habitação de teu Senhor, algo como este altar que construíste.”

“Nunca atei minhas ovelhas. Elas comem livremente pelo pasto.”

“Por isso escaparam todas.”

“Perdoe-me, meu senhor, não te perguntei o nome.”

“Meu nome é Vishnu, que nas terras de onde venho significa Conservador. Como tal, prezo pela ordem e disciplina, como formas mais acertadas de preservação. Afinal, a bondade é divina e a crueldade é natural; e quando o homem se aproxima dessa natureza a que chama liberdade, entregando-se a suas paixões, degenera-se e arrasta outros consigo. Por isso, toda libertinagem precisa ser constrangida, de modo que o hábito e a tradição prevaleçam. O hábito em oposição ao instinto, a tradição em oposição à vontade do indivíduo, isso é o que faz um homem diferente das bestas-feras que o atacam.”

“O que sabes sobre as bestas-feras?”

“É este imediatismo que te impede ver o curso dos fatos. De tudo o que te falei, colheste só o que te é mais urgente. Afinal, aquele que conhece a ciência da religião não precisa preocupar-se com as bestas-feras.”

“E o que prega esta tua ciência?”

“A alquimia de minhas palavras prega a união, nada mais. Conheces a Trindade dos Elementos?”

“Sei que antes de nascer, servi ao lado do Altíssimo na Trindade, pois assim Ele me revelou, mas nada sei sobre essa Trindade dos Elementos de que falas.”

“Há três forças que agem como uma no interior de todos os elementos da Criação e na própria essência das relações entre Brahma, Siva e Vishnu, os Senhores das terras do Sol nascente: uma força que dita as leis e a outra que as obedece, e no quanto esta consegue se multiplicar, a primeira aumenta a sua glória; a terceira força revolve em oposição às primeiras e, pela influência que exerce sobre elas, as une e cria vínculos com as demais trindades em cadeias de energia vibratória que enchem a imensidão de tudo o que há. Estes vínculos são a alquimia dos elementos e, portanto, a religião de todas as coisas. De modo que o Criador está na criatura, assim com a criatura está no Criador.”

“Não compreendo tuas analogias.”

“Tens uma esposa?”

“Sim, a mais bela das mulheres.”

“Então, tu és a força Brahma de teu lar, o regulador, aquele que porta o cajado e o cetro da justiça, o vigor da pirâmide perfeita; tua esposa é Vishnu, a força que guarda a palavra, o pilar de sustentação, a árvore da abundância, a conservadora dos recursos, a intercessora de muitos braços, o equilíbrio da pirâmide invertida; Siva é a força externa que vos une, a energia que faz as pirâmides convergirem na união perfeita.”

“Então, Siva é o amor?”

“Não, não. O amor é a prova, é o que resta depois da força devastadora de Siva; Siva é o teste, a adversidade, o calor do fogo, o coito interrompido, a guerra, a discórdia que põe à prova as ligações da verdadeira união; Siva é a própria vida.”

Vishnu enfiou sua mão sob o manto de Adão e agarrou-lhe os quilhões. Com a outra, segurou-lhe o falo.

“Se Siva dorme, Brahma e Vishnu de nada servem.”

Um calafrio percorreu-lhe a medula e Adão deu um salto para trás. Olhou ao redor e percebeu que estava sozinho.

“Conheceste o pastor?” 

Lúcifer apoiava-se em uma das colunas do altar.

“O que fazes aqui?” Perguntou Adão irritado.

“Eu sou o deus deste mundo. Estou aqui desde que tudo isto que vês era um abismo escuro e sufocante. Então, eu que deveria te perguntar o que fazes aqui e qual a razão deste sacrifício tão minguado. O que queres afinal?”

“Espero mensageiros enviados pelo Pai.”

“Como saberás se eles são enviados pelo Pai ou por mim? E por que achas que o Pai te enviaria mensageiros melhores que os meus?”

“Possuo estes oráculos que iluminam minha mente quanto ao assunto, além dos sinais que o filho do Altíssimo me deu antes de deixar o Jardim.”

“Antes que Ele te expulsasse de lá.” Corrigiu Lúcifer. “Posso ver os oráculos?”

Adão mostrou mais de perto as pedras de luz que carregava no peito.

“Parecem gemas de grande valor. Poderias vendê-las e tornar-te um homem rico.”

Neste momento, Sanvi, Sansanvi e Semanguelai chegaram ao altar, enviados da presença do Altíssimo para ver como Adão levava sua vida fora do Éden.

“Movimentado, este lugar!” Admirou-se Lúcifer. 

“Bom dia, senhores!” Cumprimentaram eles.

“Bom dia!” Respondeu o anjo decaído, que já havia perdido o costume desses maneirismos de pessoas civilizadas.

“O que fazeis aqui?” Perguntou o primeiro.

“Estava para dizer a este meu amigo que deve deixar de lado suas superstições e amuletos e buscar um bom ministro que lhe ensine a essência da verdadeira religião.” Disse Lúcifer.

“Conheces algum ministro?” Perguntaram eles.

“Há muitos de onde venho. De fato, um deles acabou de lançar algumas pérolas a este pobre coitado que nem sequer as conseguiu entender.”

“O que te disse esse ministro?” Perguntou Sanvi, dirigindo-se agora a Adão.

“Falava da necessidade que temos de ser senhores de nós mesmos a fim de que não sucumbamos ao controle de terceiros, ou de nossa própria natureza.” Adão respondeu.

Para evitar que a conversa se estendesse, Lúcifer os interrompeu, “Mas ele não pareceu muito interessado nas filosofias daquele ministro. Disse-me que está esperando por mensageiros enviados por seu Pai. Ao que parece, seu Pai é um homem rico. Vedes as gemas que ele leva ao pescoço? Se encontrasse um bom comprador para elas, jamais teria que trabalhar novamente. Tendes dinheiro?”

“Somente o suficiente para nossas necessidades.”

“Pode-se comprar qualquer coisa neste mundo com dinheiro.” Reforçou o tentador. “Além das pedras preciosas, ele me disse que recebeu alguns sinais do filho do Altíssimo quando foi expulso do Jardim. Não sei se está dizendo a verdade, afinal, por que o filho do Homem daria algum sinal a este transgressor?”

“Estás interessado em vender estas gemas de grande valor e esses sinais que recebeste?” Os mensageiros perguntaram.

“Me perdoem, senhores, mas se fôsseis afastados de vosso pai por algum motivo e esta fosse a única lembrança que ele vos deixara, e não somente uma lembrança, mas o único meio de vos comunicardes novamente com ele, vós venderíeis tal tesouro?”

“És um bom filho e certamente o teu Pai não demorará a te enviar mensageiros. Tenham um bom dia, senhores, precisamos seguir caminho.”

Os três desceram o monte na direção do Vale de Adão.

“Apesar das boas maneiras, vê-se que são tão pobres quanto tu. Não há outro senhor neste mundo que se compare a mim em riqueza e poder.” Lúcifer gabou-se.

Antes de descer do monte, tocou no ombro de Adão e disse: “Sei por que estás aqui. Fracassaste como pai e clamas pelos conselhos de um Pai mais experiente. Mas confiarias mesmo nos conselhos deste Pai ausente que tens? 

Teu filho é um mentiroso e fornicador; e tu, mesmo sabendo que aqueles arranhões eram fruto de lascívia e depravação, nada disseste ou fizeste para repreendê-lo. 

Mas não te preocupes, pois, a prostituta com quem ele se deitou não é nenhuma de tuas filhas.”

“O que dizes?”

“Digo-te que deverias ter prestado mais atenção às palavras do pastor. Se fores permissivo, perderás teus filhos um a um. Tua transgressão no Jardim será sempre apresentada como argumento por aqueles que não quiserem obedecer às leis de tua casa. Deves fazer do novo transgressor um exemplo perante os outros, pois se não agires com braço forte e impuseres restrições e penas mais rígidas, cada um seguirá seu caminho até que todos eles se entreguem às paixões e vícios da terra, tornando-se tão selvagens quanto as bestas-feras que tanto temeis.”

“Quem és tu para dizeres o que devo e o que não devo fazer em minha casa?”

“Sou aquele que veio oferecer-te ajuda quando vi que, angustiado, subiste a este monte e caíste sobre os teus joelhos em oração.”

“Vai-te daqui, Satanás.”

Lúcifer desceu do monte e Adão chorou junto ao altar.

Num outro monte a leste dali, Abu, tendo encontrado grande parte de seu rebanho, gritava por Pandora como uma ovelha desgarrada berra por seu pastor. As ovelhas ecoavam seus berros, uma após outra, à beira do desfiladeiro.

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