25 de fevereiro de 2017

Capítulo 30: A Caverna dos Símios

25 fevereiro Escrito por Eliude Santos , Comente aqui
Pandora ouviu um barulho de gravetos secos sendo esmagados sob os pés de alguém que se aproximava. Não sabia ao certo se eram gravetos ou despojos de antigos sacrifícios, mas imaginou que os passos fossem de Adão, que voltava. E se fossem de outra pessoa? Levantou-se depressa e escondeu-se atrás de um dos pilares que sustentavam a imponente estrutura do altar.

Uma batida forte e abafada contra o solo, a respiração ofegante vindo agora de baixo, as peles roçando o mármore talhado, todas estas impressões fizeram com que ela calculasse que o filho daquelas terras ou o estrangeiro que ali chegara se havia ajoelhado diante do altar.

A voz não era de um homem feito, como a de Abu; nem de um ancião, como a de Adão: era a voz grave e solene de um jovem rapaz.

“Senhor, ouve as palavras de minha boca. Senhor, ouve as palavras de minha boca. Senhor, ouve as palavras de minha boca.”

Ele ficou em silêncio como se esperasse por uma resposta, mas a resposta não veio. Esperançoso, ele repetiu sua oração, e novamente ficou em silêncio. Outra vez sem resposta. 

Na terceira vez, Pandora saiu de trás da coluna.

“Quem és?” Disse o rapaz assustado.

“Por quem clamas tão veementemente?”

“Fiz-te uma pergunta.”

“E eu te fiz outra.” Retrucou Pandora enquanto aproximava-se do mancebo.

“Clamava pelos Deuses de meu pai.”

“Já Os viste ou falaste com Eles antes?”

“Não. Meu pai costuma falar com Eles e nos revela Sua vontade.”

“E como sabes que teu pai está vos dizendo a verdade? Como sabes se tais Deuses não são fruto de sua imaginação?”

“Meu pai não mentiria para nós.”

“Às vezes, mentimos até para nós mesmos sem nos darmos conta disso. E acreditamos nessas mentiras como se fossem verdades imutáveis.”

“Eu confio no meu pai. Ele não é um homem de mentiras.”

“O que ele vos disse sobre mim?”

“Quem és tu?”

“Tenho muitos nomes, mas quando vivi ao seu lado, ele me chamava de Lilith. Não sei se fui criada ou se sempre existi. Ou se vim do ventre de alguma mãe impiedosa que nos abandonou nesta terra seca para morrermos.

Lembro-me, no entanto, que vivíamos num jardim a oeste daqui. Não sei se este jardim era apenas imaginação de nossa mente infantil ou se de fato existiu, pois quando crescemos, as lembranças da infância parecem-nos tão embotadas que é para nós como se nunca tivéssemos sido crianças.”

“Meu pai nunca falou de mulher alguma antes de nossa mãe.”

“Vês? Se ele não vos revelou toda a verdade sobre seus dias no Éden, quantas outras coisas não deve ter ocultado de vós?”

“Cala-te. Decerto que és um demônio tentando pôr inimizade entre mim e aqueles a quem amo.”

“Deuses e demônios! Também já me deixei levar por essas veredas. Teu pai deve ter exercido uma forte influência sobre mim a fim de envolver-me em seus delírios quando dividíamos o mesmo leito. Não o culpo, afinal, tais desvarios moldaram meus passos, fazendo de mim a mulher que sou hoje.” Ela aproximou-se do rapaz e enfiou a mão sob seu manto. “Mas há veredas que nos dão muito mais prazer em trilhar.”

“Solta-me.”

“Devo obedecer às palavras de tua boca ou as de teu corpo, que, pulsando nesta selvageria, implora por um tanto mais do meu toque? Sangue atraindo sangue e enchendo as cavidades. Nada é mais natural ou mais prazeroso.”

Ele a empurrou sobre o altar. Ela o agarrou pela cintura, de modo que ele caiu sobre ela.

“Por que resistes aos teus impulsos? Um dia me disseram que se eu comesse de um certo fruto, eu certamente morreria. Por muito tempo, eu evitei provar de tal fruto pois permiti que a crença de outros me impedisse de saber da verdade por mim mesma. Quando finalmente cedi aos meus impulsos, meus olhos se abriram. A transgressão é verdadeiramente libertadora.”

“Deixa-me ir. Estás maculando este lugar sagrado.”

“Nada há de mais sagrado que o desejo. Eu estaria maculando o meu desejo e o teu se me refreasse por causa de tua ignorância. Ou achas que deixando-te ir, teu desejo esfriará?”

“Animais são o que desejam; homens são o que acreditam. Talvez o meu desejo me atormente se não o satisfizer agora, talvez meus sonhos me tragam de volta a este altar, de volta aos teus braços. Afinal, és uma mulher desejável. Mas que paz eu teria se não resistisse a tais impulsos e, por um deslize, manchasse a minha alma?”

Desvencilhando-se de Pandora, ele pôs-se de pé. Ela acocorou-se sobre o altar.

“Acreditar é um desejo como qualquer outro. Um homem não é o que acredita; mas sim o que faz. Abstendo-se de agir conforme sua própria vontade, sua existência perde o sentido. 

Ademais, estas coisas nas quais acreditas: sabes delas por ti mesmo ou porque teu pai te disse que eram assim?”

“Que diferença isto faz?”

“Se soubesses por ti mesmo, a crença seria tua, a vontade seria tua — e como eu disse antes, nada é mais sagrado que o desejo, o teu desejo; no entanto, sabendo pela boca de terceiros, tens somente vontade de que aquilo que ouviste se prove verdade. Assim sendo, tuas ações deixam de ser um reflexo de tua vontade e passam a ser um reflexo da vontade desses que te convenceram a assim agir. 

Neste momento, a vontade de obedecer às leis que teu pai forçou sobre ti a partir de experiências que são dele e não tuas conflitam com o teu desejo real, que é este que faz tuas carnes tremerem e estremecerem diante de mim. E isto se dá porque tua crença, e portanto tua vontade de obedecer estas leis nas quais foste condicionado a acreditar, luta contra tua natureza que grita dentro de ti para que dês ouvidos às leis que de fato tens vontade de obedecer.”

“Se a vontade é minha ou se foi forçada sobre mim, pouco importa. O que importa é que eu faça a coisa certa.”

“E quem decide o que é certo e o que é errado?”

“Os Deuses. Aqueles para quem eu dirigia as palavras de minha boca antes de ser interrompido por ti.”

“Olha para cima. Vês alguma nuvem no céu?”

“Não.”

“Então gastavas tua saliva à toa. Eles não estão por aqui. Geralmente escondem sua nave entre as nuvens para que não saibamos quando estão por perto.”

“Do que falas?”

“Destes homens que buscavas e que teu pai te disse serem deuses. Não sei o que são, mas certamente não são confiáveis. Foram eles que me tiraram a visão. Eu quis desvendar o véu que os separava de mim, e eles feriram meus olhos com esta escuridão sem fim.”

“Teus lábios são uma fonte de mentiras.”

“És um bom rapaz. Vê-se que és leal e fiel e tens um bom coração. Não me ofendo com as palavras que te enchem a boca, pois não tens culpa alguma da ignorância que anuvia tua mente, nem do pântano fétido em que firmaste o alicerce de tuas crenças.”

“Vai-te daqui.”

“Irei, mas quero que lembres de minhas palavras quando estes navegadores dos astros voltarem em suas naves, e, apresentando-se diante de vós, destilarem sua crueldade no seio de tua família. 

Ou achas que tirar a visão de alguém pode ser obra de seres benevolentes? Se estes seres são reais, certamente não são esta fonte de verdade e justiça que dizem ser, e todos os que se opuserem à sua vontade correm perigo.

Vim a estas terras pois me importo com teu pai. Procurei alertá-lo sobre a situação de risco em que sua crença cega nestes estrangeiros que mal conhece coloca a si mesmo e àqueles a quem ama. 

Mas teu pai sempre foi um homem obstinado e não quis me dar ouvidos.

Tu, no entanto, pareces ser mais assisado que ele. Certamente me ouvirás quando fores temperado no calor dos acontecimentos que estão por vir.”

Ela desceu do Monte e o jovem rapaz pôs-se a pensar.

O caminho foi longo de volta ao lugar de sua habitação. Devido à sua cegueira, muitas vezes, enganou-se quanto a que direção tomar e sentiu-se perdida. Mas, uma luz dentro dela, como se fosse uma estrela solitária naquela caixa torácica que, por curiosidade, abrira, libertando as trevas interiores que engoliram o mundo ao seu redor; sim, no seu peito, o último resquício de esperança queimava solitário, restaurando sua calma e ajudando-lhe a retomar o rumo.

Ela estava exausta quando chegou à caverna dos símios. 

Lembrava-se da primeira vez que os encontrara, quando, sob o efeito de ervas torpentes, correra pela mata com serpentes enroscadas em seus cabelos achando-se possuída por seres do mundo etéreo cuja manifestação atribuía agora ao seu estado alterado.

Naquela ocasião, cercada pelo bando de símios que, como homens, andavam eretos e colhiam obsidianas às margens do Pison, sem controle algum sobre si mesma, feriu de morte o mais forte deles e foi prontamente acolhida pelos demais, como se fosse uma divindade que surgira em seu meio. 

Desta vez, no entanto, foi recebida com lanças, clavas e machados, e sequer tinha as serpentes ou dragões para defender-se de algum modo.

Espancada e atada com cipós, foi lançada na mesma vala onde Abu vinha sendo mantido em cativeiro.

Mas Abu não estava lá. Havia sido atado a um tronco onde, despido de suas vestes, servia a todas as fêmeas do bando, cada uma conforme seu período fértil.

E isto faziam porque haviam sido convencidos pelos espíritos dissidentes que aquela era a única maneira de erguerem um exército suficientemente forte para protegê-los contra as investidas dos filhos dos homens que em breve se levantariam sobre a Terra e subjugariam não somente os símios, mas todas as outras bestas, causando tamanho desequilíbrio que, até mesmo para os seus, aquele mundo se tornaria um lugar hostil.

Embora, com o passar de gerações, os símios tivessem sofrido consideráveis mutações que deram variedade e causaram discórdia e dissidências em sua espécie; eles ainda estavam muito distantes de enfrentarem seus futuros opressores à altura.

Quando a mulher com serpentes na cabeça foi trazida até eles, esperavam que ela servisse aos machos do bando a fim de gerar os filhos da terra, conforme as promessas que haviam recebido daqueles que sussurravam entre as árvores e nas águas dos rios aos mais experimentados do bando.

Mas ela se foi, tão logo libertou a serpente devoradora, que causou discórdia e divisão entre eles, enfraquecendo o bando.

Então, os deuses que sussurram suas palavras de sabedoria aos quatro ventos e cuja influência corre nas águas dos quatro rios que cortam a Terra em quatro cantos, sim, os deuses que se manifestam na queda das folhas de outono ou no desabrochar das cores da primavera, em sua bondade e sabedoria, deram-lhes uma segunda e melhor chance quando guiaram-lhes ao encontro do pastor.

Abu, por sua vez, já não aguentava tamanho esforço. E não eram somente as carnes que lhe doíam, mas ainda mais seu espírito que se ofendia sobremaneira com aquelas práticas vis.

Quando ele e Pandora finalmente se encontraram, eles choraram por um dia e uma noite. Mas findando-se as lágrimas, começaram a pensar num estratagema que os tirasse daquele martírio. Afinal, tampouco nasceram os primeiros filhos da mulher, ela também foi violada pelos machos do bando.

Quanto aos gêmeos, filhos do casal, foram atirados no rio para morrerem afogados.

No entanto, após muitas tentativas malogradas de fuga, Pandora e Abu continuavam sendo recapturados e trazidos àquela vala onde mal conseguiam se mexer, senão quando eram tirados de lá para servirem às concupiscências dos símios e posteriormente dos filhos e filhas da terra que foram-se multiplicando e espalhando para além daquelas cavernas às margens do Pison.

Sua habilidade no manuseio das lanças era invejável. Exímios caçadores, agradava-lhes o abate de bisões, cervos e javalis. Sua força descomunal e agilidade fizeram deles os novos senhores do bando, de modo que os símios originais foram quase que totalmente extintos ou fugiram para as montanhas, para juntarem-se àqueles que haviam seguido o dragão nas primeiras dispersões.

E assim os filhos da terra foram aos poucos cercando o assentamento dos filhos dos homens, conforme os planos dos dissidentes que do mundo etéreo tudo observavam de perto.


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