15 de fevereiro de 2017

Capítulo 29: O Grande e Espaçoso Edifício

15 fevereiro Escrito por Eliude Santos , Comente aqui
Samael acariciou o rosto de Pandora; ela bocejou, ainda que sem sono. Num toque dormente e insosso, as mãos etéreas do arcanjo decaído percorreram o corpo nu daquela bela mulher deitada sobre o altar diante dele. Ele sussurrou, falou, gritou, esbravejou, e ela não se moveu. Ela já não lhe ouvia. Ele subiu sobre ela e agarrou-lhe a garganta. Queria sufocá-la, mas suas mãos atravessaram-lhe o pescoço como se ela fosse feita da névoa intangível de suas lembranças.

Lúcifer aproximou-se do discípulo e tocou-lhe o ombro. Samael ergueu-se desolado sobre o altar.

“Por que ela fez isto comigo, meu senhor?”

“Choras por ela ou por ti mesmo? O fato é que foste tentado pelos vícios dos sentidos humanos e caíste na tentação. Tu deverias seduzi-la e, no entanto, foste seduzido por ela. Não pela mulher em si, mas sim pela efemeridade das sensações que ela te permitiu sentir. Quando te apossaste do seu corpo, sentiste o prazer das sensações mais suaves e das mais violentas; sentiste a dor, o gosto, o cheiro; viste as cores deste mundo com a precisão de olhos mortais que nunca terás; sentiste o corpo preso ao chão e te apaixonaste pela terra, pela grama, pela pedra quente queimando a sola dos pés da hospedeira. No entanto, mesmo consciente de que todas essas sensações não passavam de efêmeros empréstimos, esbaldaste-te em todas elas como se fossem tuas. Então, diz-me: choras pela mulher ou pelas migalhas de humanidade que ela compartilhou contigo?”

Samael desceu os degraus do altar e agachou-se junto a um dos pilares atordoado por um estupor de pensamentos. E se não tivesse dado ouvidos às palavras daquele articulador? Talvez estivesse ele deitado sobre aquele altar quente, sentindo a brisa correr-lhe pelo corpo, roçando as mãos na rocha áspera, inundando a alma com os odores mais sutis. O que não daria por um pouco mais?

Lúcifer ficou de cócoras diante dele, e com o dedo indicador, ergueu o queixo do seu discípulo.

Eles estavam no topo do Monte dos Sacrifícios, donde era possível vislumbrar as majestosas edificações de Havillah, contornadas pelo Rio Pison, como que por sobre e ao redor do Vale de Adão e por todas as terras que dali se estendiam rumo ao horizonte.

Edificações que Adão conseguira avistar das copas das mais altas sequoias do Éden quando seu corpo ainda não havia sido corrompido pelo sangue, mas que agora, tal qual o próprio Jardim, só podiam ser vistas se, de algum modo, ele fosse transladado àquela dimensão etérea de existência.

No entanto, para estes de constituição corpórea tão volátil, era o mundo físico que lhes parecia uma miragem. De modo que o vilarejo que Adão construíra para seus filhos mal se distinguia entre aqueles arranha-céus iluminados que há muito haviam sido erguidos pelos dissidentes a leste do Éden.

Lúcifer apontou para toda a multidão dos espíritos de homens e mulheres — tanto os arcanjos decaídos, conhecedores das artes e ciências que regem o Caos e o Cosmos; quanto os espíritos dos filhos ainda não nascidos do Altíssimo, inebriados pelo véu do esquecimento — que juntos enchiam os átrios dos edifícios, as praças e vias públicas daquela grande cidade.

“Vês estas grandes edificações e estes espíritos de homens e mulheres que andam de um lugar para outro na realização de suas tarefas a fim de que não se apague de suas mentes a centelha de civilidade que herdaram da estrela donde vieram?”

“Sim, vejo.”

“Faz como eles e ocupa-te d’alguma coisa a fim de que não sucumbas ao poço de tua miséria.”

Lúcifer levantou-se e estendeu a mão direita ao seu discípulo, que, se erguendo, agarrou-a com a esquerda.

Num piscar de olhos, eles haviam-se movido do topo do Monte dos Sacrifícios até o mirante do mais alto dos edifícios que dali conseguiam enxergar.

Lá embaixo, o rio de águas bravias parecia uma serpente longa e esguia que do Kibaranun corria em busca da luz matutina.

Mansões e casebres, oficinas e alojamentos, nosocômios e palestras, praças e estádios, prisões e estâncias e toda sorte de melhorias que os dissidentes julgaram necessárias ao seu bem-estar foram construídas ao redor do grande e espaçoso edifício como se fossem extensões de igual beleza e engenhosidade, todos erigidos a partir do mais fino mármore, com seus pilares descomunais e estátuas colossais, cujos adornos, com inigualável perfeição, haviam sido fundidos e moldados a partir dos espectros de ouro e zircônia e de toda sorte de pedras preciosas que esta Terra fora capaz de produzir.

Ora, quando a Terra foi arrastada ao lugar de sua órbita, um anel de detritos formou-se ao seu redor. Em suas revoluções, esses detritos chocaram-se entre si e fundiram-se, deixando escapar pequenas garras negras que caíram como estrelas incandescentes sobre a Terra, abrindo crateras e despertando vulcões adormecidos.

Da fusão dos detritos desses anéis que, em arco argênteo, revolviam em torno da Terra, surgiu outrora a bela Lua a fim de espantar a escuridão da noite.

E do espectro das garras negras das ônixes que respingavam desta fusão chocando-se com a Terra, e do marfim da bedolah que, exposto ao calor do Sol, exalava o mais doce dos aromas, foram construídos tronos e monumentos e o próprio alicerce daquele colossal edifício que se erguia majestoso no centro da grande cidade.

No mirante da sala do trono, Lúcifer colocou o braço em torno do ombro de Samael.

“Não percebes? Tudo isto que teus olhos alcançam nos pertence. Somos os príncipes deste mundo. Ele é nosso. Este é o grande dia de nosso poder. E nosso reinado se estende da nascente dos quatro rios aos quatro cantos da Terra. Não há quem se atreva a nos molestar ou amedrontar.”

“Como pode ser este o grande dia de nosso poder se Pandora nega nossa existência e, por não mais experimentar das ervas que lhe entorpeciam a mente, já não pode ser usada como instrumento em nossas mãos?

Com sua ajuda, espalhamos as imagens de escultura e erigimos os templos onde, chegada a hora, nos manifestaremos aos filhos dos homens como seus mestres e senhores.

No entanto, devido à sua rebeldia, não conseguimos fazer com que ela misturasse seu sangue aos dos símios a fim de que fossem gerados os filhos da terra cujos corpos, sem arquétipos espirituais, ficariam à mercê das hostes de nossos discípulos de maneira perene a fim de subjugarmos os filhos dos homens e ocuparmos os domínios físicos da matéria.”

“Acaso esqueceste que os símios aprisionaram um dos filhos de Adão? Nosso plano não foi de todo malogrado.

Ademais, nota-se claramente em ti, um dos mais elevados espíritos desta Esfera, o efeito nocivo da possessão que te fez escravo das percepções humanas e colocou-te de joelhos diante do objeto de teu desejo implorando para experimentar um pouco mais do cálice de tais sensações.

Não te ocorre que assim será com a legião dos espíritos que nos seguem quando lhes oferecermos, em nossos templos, os corpos dos filhos dos homens e dos filhos da terra como hospedeiros transitórios ou perenes, fontes destes mesmos efeitos nocivos que ora te acometem?

Num vínculo vicioso, um alimentará a sede do outro. E nisso tudo, lucramos nós que nos abstemos do uso entorpecente dessas associações ilícitas, tornando-nos mestres e senhores dos que vierem até nós em busca daquilo que em sua esfera de existência não lhe cabe experimentar.

Pois o efeito do Véu do Esquecimento que anuvia a mente dos mortais macularia os pensamentos de nossos discípulos e os tornaria sedentos pelas sensações da carne e dispostos a fazer qualquer sacrifício por um pouco mais do veneno da mortalidade.

De igual modo, a leveza das sensações etéreas farão com que os filhos dos homens e os filhos da terra encontrem um alívio transitório para as misérias de sua existência, e eles se porão de joelhos diante de nossos altares implorando por um pouco mais das sensações desses espíritos santos que permitiremos que se apossem de seus corpos, fazendo-lhes tremer e estremecer e alcançar as mais elevadas frequências de entendimento e paz que na turbulência de seus dias são incapazes de encontrar por si próprios, não obstante sejam eles mesmos vivificados por um espírito de natureza tão etérea quanto a destes que nos seguem.

Mas se for da vontade de ambos entregar-se a tais concupiscências, que seja este o preço que pagarão.

Quanto à Pandora, assim como ela não crê em nossa existência, também nega a existência de Ahman e suas hostes. Se não pode ser usada como instrumento em nossas mãos, tampouco pode nas Dele.

Assim será com as sementes que carrega em seu ventre, dos quais nos aproximaremos com recursos mais refinados de persuasão.”

Confuso sobre o que seu mestre insinuara, Samael arriscou, “Iluminaremos a mente daqueles que se mostrarem mais suscetíveis à nossa influência a fim de que possam enxergar à frente de seu tempo e anunciem aos demais os desígnios da Justiça, erguendo-se como profetas e videntes, tal qual Ahman fará entre os filhos de Adão?”

“Se os filhos de Pandora não creem em nós e negam até mesmo a existência dos Deuses que os criaram, julgando-se filhos do Acaso, por que acreditariam em profetas e videntes que levantássemos em seu meio?

Ademais, sem prova alguma da existência desta dimensão etérea onde estiveram antes de nascer e para onde voltarão em decorrência de sua morte, nada lhes restará senão a efemeridade de sua existência mortal, de modo que sua esperança esfriará e, sem ela, necessitarão de uma outra verdade maior que lhes dê algum rumo e segurança. E buscarão por esta verdade dentro de si mesmos ou no mundo tangível e físico ao seu redor.

E as respostas que encontrarem no exercício de sua sensatez e coerência apontarão para a longevidade das rochas, a iminência da morte, a imensidão do universo e a fragilidade das convenções humanas, de modo que rejeitarão qualquer chama de esperança, tamanha será a pequenez com que enxergarão sua própria raça.

Portanto, entre estes, nos absteremos de quaisquer interferências a fim de que eles de fato não percebam sinal algum de nossa existência.”

“E o que ganhamos com isso? Se eles não estão do nosso lado, engrossam as fileiras do Criador.

Ou achas que este ceticismo resistirá ao fato irrefutável de que, chegando sua morte, a essência etérea que lhes vivifica deixará seu corpo físico e virá ter conosco nesta esfera espiritual?”

“Não se fizermos com que um sono profundo desça sobre seus espíritos, tal qual o Criador fez com Adão nos meses em que gerou a pequena Eva, de modo que terem-se ausentado de seus corpos físicos seja para eles como se simplesmente tivessem deixado de existir, afinal, somos as Demandas da Justiça e temos a liberdade de aplicá-la conforme os ditames da consciência humana, a cada um de acordo com o modo como ele julga a si mesmo, ao seu próximo e ao mundo ao seu redor. E não é isto o que a alma do cético anseia que lhe aconteça por ocasião de sua morte?”

“Um sono profundo? Os servos do Altíssimo intervirão e os espíritos dormentes não tardarão a despertar.”

“Aos que despertarem atordoados, será como se estivessem começando uma nova vida em nosso meio, e nos esforçaremos para convencê-los disso. E as lembranças que tiverem de sua existência mortal serão para eles como ecos de uma outra vida, que lhes parecerá diferente e distante.

Estes viverão na esperança de uma nova morte e de um novo nascimento. E deste modo não perceberão a necessidade do sacrifício do Cordeiro, porquanto eles mesmos acreditarão estar expiando por seus próprios erros a cada novo despertar.

E deste grande e espaçoso edifício, pois aqui há lugar para abrigar o mundo todo, os que se entregarem aos prazeres da carne apontarão o dedo do escárnio para aqueles que resistirem a todas as nossas investidas e, apegando-se à barra de ferro, cruzarem o abismo do Kibaranun rumo à Árvore da Vida.

Se, na mortalidade, os céticos criam somente no que resistia ao teste de seu entendimento; nesta dimensão, não serão diferentes. De modo que, quanto menos souberem, mais especularão; e quanto mais especularem, mais distorcida se tornará a sua visão da verdade.”

“De que nos servem discípulos cegos e ignorantes como estes que descreves?”

“Subestimas o poder da ignorância. Aos que pedem deuses, daremos deuses; aos que pedem milagres, daremos milagres; aos que pedem filosofia, daremos filosofia; aos que nada pedem, nada daremos; e ainda assim lucraremos do nada que de nós receberem.”

Samael compreendeu o que seu mestre lhe falava e desceu com ele ao meio do povo a fim de ocupar-se de suas novas tarefas.


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