6 de março de 2017

Antígona EnTerra

06 março Escrito por Eliude Santos 2 comentários
O atualíssimo texto grego de Sófocles na boca e no corpo dos atores do Núcleo de Pesquisa M4 ganha substância performativa quando a diretora Carolina Angrisani decide, em suas próprias palavras, aceitar o “desafio de trabalhar a performatividade num texto clássico sem perder o caráter trágico da obra.”

No início da peça, a plateia é conduzida pelas escadarias da Praça Roosevelt, ocupando o espaço público, onde se dá a primeira cena: a guerra entre Polínices e Etéocles. A imprevista intervenção militar (que não estava no roteiro) querendo barrar a apresentação do espetáculo deixou o clima tenso para a plateia que não sabia se entrava no jogo ou se recuava. 

Finalmente, numa roda de danças ritualísticas no meio da praça, a plateia é convidada a misturar-se ao elenco como que num ato de resistência aos mandos e desmandos de ditadores de direita que querem calar as expressões artísticas e os direitos naturais do cidadão comum.

A plateia, que acabou de participar de um ato de resistência política, é conduzida ao saguão no subsolo da Estação Satyros, e tem a opção de deixar-se corromper pelo discurso convincente do tirano Creonte, bebendo do “vinho da cumplicidade” que ele lhes oferece, ou de recusar a oferta tentadora, mantendo a dignidade intacta e reconhecendo o vilão diante de si. 

Afinal, é de resistência que fala este brilhante texto grego, que nunca foi tão atual e tão brasileiro. 

Antígona, canta por seus direitos. Creonte cospe suas verdades articuladas em discursos vis e debochados, nas justificativas de seu abuso de poder e ações repressoras. E, num punhado de terra, o ciclo da tragédia se fecha. Um punhado de terra que representa a dignidade, esta virtude humana que muitos vendem por tão pouco, e que outros tantos calam por medo ou diante da sensação de impotência.

Mas o tempo passa e o povo começa a erguer sua voz e até os próprios oráculos, os próprios veículos de massa que outrora ajudaram a erguer o tirano, proclamam a sua queda. Na voz dos Cães de Tirésias, a célebre frase, “O povo fala. Por mais que os tiranos apreciem um povo mudo, o povo fala. Aos sussurros, a medo, na semi-escuridão, mas fala.”

Aquela batalha emblemática do início da peça não se trava de fato com armas somente, mas com a voz. A objeção torna-se, portanto, a essência dos movimentos emancipatórios. A mulher que não aceita o papel de submissa, o filho que rompe o ciclo doentio de autoritarismo e injustiça de seus pais, o povo que não aceita o papel de cúmplice de seu próprio algoz, todos erguem sua voz, pois o decreto não pode violar as convicções íntimas do indivíduo quando estas são alicerçadas em valores superiores ao do regime que lhes subjuga.

Antigona EnTerra está em cartaz no teatro Estação Satyros todo domingo às 18h

Endereço: Praça Franklin Roosevelt, 134 - Centro, São Paulo
Capacidade da sala: 50 lugares
Entrada: R$ 30,00 

Direção: Carolina Angrisani
Elenco: Regiane Malta (Antígona) , Jefferson Campos (Creonte jovem), Waltinho Ribeiro (Creonte velho), Gerbson Ferreira (Polinices), Anderson Sales (Etéocles), Kris Mariano (Ismênia), Danilo Borges (Soldado), Clau Siqueira (Eurídice), Sarom Durães (Hémon), Verena Cervera (Tirésias), Anderson Sales e Ewerton Morais (Cães de Tirésias), Yuri Garcia (mensageiro), Rafael Pires (corifeu)

Os atores participaram da concepção musical do espetáculo e tocam ao vivo num ritmo vibrante de tambores e violão.

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