29 de março de 2017

Capítulo 31: Caim e Abel

29 março Escrito por Eliude Santos , 2 comentários
Após tantos encontros com estrangeiros que, com a astúcia de discursos tendenciosos, procuraram confundir suas convicções — e temendo que, fazendo uso dos mesmos artifícios, eles viessem a desencaminhar quaisquer de seus filhos — Adão decidiu seguir o conselho dos mensageiros do Altíssimo, e deu início à construção de uma espaçosa Palestra que ia desde o centro do assentamento até o bosque de freixos e salgueiros às margens do Pison. 

Aos poucos, as muralhas, o pátio dos jogos, os átrios de instrução, o alojamento dos construtores, as estufas, celeiros e estrebarias começaram a ganhar forma em torno do Salão dos Tesouros, que, no centro da Palestra, fora erguido para guardar os registros da história daquele povo e de todo o conhecimento que fosse considerado útil para sua instrução, bem como para servir de relicário para os implementos sagrados trazidos do Jardim e que até então vinham sendo guardados na caverna onde Adão e sua esposa encontraram refúgio após serem expulsos do Paraíso.

Eva não perdera a esperança de que seu filho Abu retornaria ao assentamento. E para satisfazer sua esposa, Adão comandou novas buscas, sem sinal algum do paradeiro do pastor. 

Abel esteve à frente de grande parte de tais buscas. 

Em seu coração, ele queria verdadeiramente encontrar o irmão; mas se não o encontrassem, ao menos poderia cobrar de seu pai que apontasse um novo sacerdote para ocupar-se do pastoreio. 

Afinal, ele possuía um espantoso talento para cuidar de animais e, movido pelos relatos dos supostos atos prodigiosos de seu irmão Abu, conforme este mesmo lhes contava ao redor da fogueira sempre que retornava ao arraial com alguma nova cicatriz ou ranhura; sim, por admirar sua valentia e por querer ser como ele, Abel cresceu na esperança de que um dia seria colocado à frente dos rebanhos e poderia aventurar-se como seu irmão nas terras desoladas daquele mundo escuro e triste em eles que habitavam.

Adão sabia que Abel queria provar-se digno do pastoreio e ficou feliz quando o jovem rapaz se ofereceu para ajudá-lo nas buscas, mas sua casa era uma casa de ordem e, mesmo que Abel se mostrasse capaz de exercer tal tarefa, aquele encargo havia sido reservado ao primogênito de seus filhos. E, na ausência de Abu, o direito à primogenitura era agora de Caim. 

Este, no entanto, não demonstrava qualquer interesse em envolver-se com os rebanhos; antes, preferia arar a terra e cuidar das hortas e pomares, e dos bosques de árvores frutíferas no entorno do Vale. 

Devido ao caráter de urgência daquela situação, Adão aceitou que Abel lhe acompanhasse. 

Ao encontrarem os rebanhos, Abel ofereceu-se para cuidar dos cordeiros enquanto Adão seguia os rastros deixados pelo campo na esperança de encontrar seu filho pelo caminho. 

Encontrou apenas barro e sangue e, em seu coração, temeu pela vida de Abu.

Quando retornaram com o que restara do rebanho, houve grande alvoroço no arraial. 

Abel estava triste pelo desaparecimento de seu irmão, mas confiante de que seu pai reconsideraria suas resoluções e o apontaria como pastor.

Adão deixou sua esposa em prantos e subiu ao Monte para buscar entendimento quanto ao que deveria fazer. No entanto, foi surpreendido por uma bela mulher de tez negra e viçosa que, despida diante dele, dizia ser sua primeira esposa e, em gestos insinuantes e palavras ameaçadoras, questionava suas crenças e opunha-se a suas certezas. 

Ela parecia saber do paradeiro de Abu e, por isso, o patriarca temia que fosse ela a responsável pelo desaparecimento do pastor.

Atordoado, Adão desceu do altar decidido a proteger seus filhos daquela ameaça. No entanto, Caim, seu primogênito, não estava no assentamento e ninguém sabia de seu paradeiro.

“Como não sabeis onde está vosso irmão depois do que sucedeu a Abu? Ainda não percebestes o perigo que corremos neste mundo escuro e triste que habitamos? Esta é uma terra hostil, e cada um de nós é o maior tesouro que o outro possui. Afinal, se perdermos uns aos outros, que valor terá nossa própria existência?

Em face dos últimos acontecimentos, já não teremos mais um único pastor no Vale; de modo que todos tornam-se, por decreto solene, pastores uns dos outros. Não para julgar um ao outro, mas para demonstrar interesse genuíno, que é a força maior que nos une. Afinal, somos todos guardadores de nossos irmãos, e se descuidarmos uns dos outros responderemos com mais sangue inocente sendo derramado pelo caminho. 

E guardaremos registro de toda ação, palavra e pensamento a fim de que nada seja feito às escuras entre nós.

Ouvi-me, meus filhos, pois isto vos falo para vossa proteção e proveito.”

Assim que Caim desceu do monte, Adão foi ter com ele em seus aposentos.

“Caim, de onde vens?”

“Subi ao Altar dos Sacrifícios para buscar orientação do Altíssimo.”

“Por que não vieste primeiramente a mim?”

“Não estavas no arraial, meu pai.”

Ora, Adão havia acabado de descer do monte e temeu que Caim tivesse cruzado o caminho da estrangeira.

“Não deves subir ao altar sem a minha presença. Nem deves deixar o Vale sem que teus irmãos saibam de teu paradeiro.”

“Meu pai, sempre disseste que aquele solo é sagrado e que nada impuro pisaria os degraus daquele altar. Não deveria ser seguro um lugar de tal natureza? Por que não devemos subir ao Monte dos Sacrifícios sem a tua companhia?”

“Em dias nublados, Caim, a luz do Sol sempre encontra alguma fresta para iluminar nossos caminhos; mas, chegando a noite, as trevas prevalecem e, sem a Lua ou as estrelas no céu, vagamos errantes, e nenhum caminho é seguro.

Vivemos a noite de nossos tempos. E é uma noite com muitas nuvens no céu. Portanto, cabe a quem possui a candeia de azeite garantir que todos sejam igualmente iluminados por ela.”

“Sei que tu portas o castiçal, meu pai, e com a luz que dele emana me iluminaste todos os dias de minha vida. Se pedes que eu não suba sozinho ao Monte, eu não subirei. Mas intriga-me a natureza e origem do azeite que alimenta o fogo dessa candeia. 

Por que o Altíssimo nunca se revelou a mim nem a nenhum de meus irmãos como faz a ti? Por que Ele não te alertou do perigo que Abu corria nos pastos verdejantes por onde levava os seus rebanhos?

Disseste que Ele nos deu três grandes mandamentos no princípio dos tempos. ‘Crescei, multiplicai-vos e enchei a Terra’, não foram estas as palavras que ouviste de Sua boca? Como haveremos de crescer e produzir boas obras se nossos passos e pensamentos são sempre podados por tantas leis? Como haveremos de nos multiplicar se não podemos dispor de nossos corpos entre os de nossa própria casa como fazem os animais quando movidos pelo impulso de sua natureza? E como haveremos de encher a Terra quando, ao invés de nos espalharmos, construímos muralhas entre nós e o mundo, isolando-nos neste arraial?”

“Tuas perguntas excedem o meu entendimento, meu filho, mas certamente não escapam à ciência Daquele que tudo sabe.”

Havia uma certa apreensão nas palavras do patriarca. 

Caim pôs-se a pensar no que a mulher de muitos nomes lhe dissera a respeito de seu pai.

“Conheço as leis de nossa casa. Sei que, com o desaparecimento de Abu, recaem sobre mim as bênçãos e encargos da primogenitura. E foi por esta razão que subi ao monte. Ajoelhado diante do altar, intentava clamar ao Altíssimo que tirasse de meus ombros este pesado fardo, afinal, Abel é muito melhor pastor do que eu, e não seria justo que eu tomasse seu lugar no pastoreio. Ademais, Abu, que era muito melhor pastor que todos nós, falhou em sua vigília e foi devorado pelas feras do campo.”

“Não sabemos o paradeiro de teu irmão.”

“Encontrastes sangue derramado pelo caminho. Que outra prova ainda buscais?”

“O que temes, meu filho?”

“Temo por vosso bem-estar. Temo que eu não seja a melhor escolha para cuidar desta tarefa que foi imposta sobre mim sem considerar minha capacidade de levá-la a efeito. Sou um homem da terra. Tubérculos, ervas, grãos e frutos são o quinhão que me cabe ofertar a vós.”

“Tua mãe e tuas irmãs já se ocupam desta tarefa.”

“Elas precisam de um braço forte para arar a terra.”

“Meu filho, diz-me o que está em teu coração e eu te ouvirei.”

“Já te disse tudo o que me aflige.”

“Se assim o fizeste, tua oferta será aceita. No entanto, não cabe a mim julgar teus anseios, porquanto homem algum sabe ao certo o que consome o coração daquele que esconde do olhar alheio suas mais secretas feridas.”

Após arrazoarem, Adão permitiu que Caim continuasse se ocupando do plantio, desde que não hesitasse em acompanhar seu irmão Abel no pastoreio, porquanto, dali em diante, todos naquele arraial deveriam andar de dois em dois pela Terra, a fim de que um pudesse servir de ajuda e proteção ao outro. 

De modo que Adão reuniu todos os seus filhos e fez-lhes saber sua vontade. E anunciou também a construção daquela espaçosa Palestra onde as novas gerações seriam instruídas em todas as palavras de sabedoria que o Altíssimo lhes havia revelado, bem como no conhecimento das coisas naturais e dos astros, das artes e dos ofícios, dos jogos e dos cálculos, e da universidade do conhecimento em que se firmariam toda a engenhosidade, vigor e talento que aquela nova raça seria capaz de produzir sobre a Terra.

E antes que chegasse a chuva e o frio, cavaram os alicerces e firmaram as pedras angulares, de modo que o novo e espaçoso edifício começava a ganhar corpo no Vale. 

Havan e Azura eram as mais engenhosas dentre todos os filhos de Adão. Juntas, elas se completavam em tudo o que faziam. Quando Azura arriscava com um graveto o projeto de uma nova estrutura, Havan sabia onde encontrar os materiais para a execução dos traçados da irmã e aventuravam-se nos bosques além das margens do Rio a fim de conseguirem madeira de qualidade, minerais para a fundição, fibra para as cordas, e tudo o que lhes fosse útil para realização de suas obras.

Enquanto cortavam eucaliptos para a construção de uma estufa, ouviram um choro de infantes que parecia vir das águas do Pison.

Elas correram na direção do choro e avistaram duas crianças presas entre gravetos e pedras no leito do rio.

Havan saltou nas águas bravias com uma corda amarrada à cintura, e nadou até os gravetos. Azura passou a outra ponta da corda pelo galho de uma árvore seca e atou-a a uma rocha mais à frente. 

Com uma cunha, deslocou a rocha de seu lugar, de modo que Havan foi arrastada pelas águas com as crianças em seus braços até a margem do rio.

As duas desataram o jugo dos curelons e, deixando a pilha de eucalipto num descampado junto às margens do rio, correram para o assentamento levando os infantes consigo.

Todos ficaram alvoroçados com o aparecimento daquelas crianças e cada um arrazoava a seu modo sobre quem seriam seus progenitores e que motivos pais tão cruéis poderiam ter para lançá-los à morte nas fortes correntezas do Pison.

Caim não acreditou nas palavras de seu pai quando o patriarca se levantou no meio do arraial e, erguendo os infantes perante os olhos de todos, disse que aquele era um sinal da providência divina.

Adão deu ao menino o nome de Hapi e à menina deu o nome de Nod, e ambos cresceram no Vale como se fossem filhos de sua casa.

Como os outros infantes, Hapi e Nod foram iniciados nas salas de instrução, cujas paredes eram decoradas com cenas do cotidiano e regras de conduta. Ali, aprenderam a língua de seus pais, bem como todas as artes e cálculos que até então eram do conhecimento dos filhos dos homens; leram as palavras de sabedoria dos mais velhos e aprenderam a escrever suas próprias crônicas e provérbios para aqueles que viriam depois deles; foram apresentados às harpas e flautas, tambores e tamborins, e fizeram grandes festividades no arraial.

Nas festividades, os aprendizes que mais se destacavam nos jogos combatiam entre si e eram coroados com guirlandas. 

E todos dançavam em torno da fogueira enquanto bebiam do vinho que Caim lhes ensinara a produzir.

A depender das necessidades do arraial, cada um recebia instruções específicas de mestres mais experientes, a fim de servirem ao seu lado em suas tarefas diárias.

Hapi ajudava Caim no cultivo das videiras e Nod auxiliava Abel com a ordenha dos rebanhos.

Além de servir no pomar, Hapi dedicou-se à arte da transmutação dos elementos e, numa moenda construída por Havan a Azura, misturou areia branca, cobre e natrão, triturando-os para conseguir um pó miúdo que foi queimado na fornalha de Adranon até que ganhasse uma pigmentação semelhante ao azul do firmamento num dia sem nuvens.

Tingindo a pele com aquele pigmento, saltava diante de todos dizendo ter caído dos céus nas águas do Pison. 

Hapi era um belo rapaz. E não demorou para que, longe dos olhos dos anciãos, ele começasse a seduzir as filhas de Adão, que foram cedendo, uma a uma, aos seus encantos. Ele dizia-lhes que ninguém ficaria sabendo e que estavam apenas experimentando o guisado antes que ele fosse servido à mesa do banquete. Afinal, que mal havia nisso? 

Quando Adão descobriu o que acontecia sob suas barbas, mandou chamar o transgressor apressadamente à sua presença.

“O que foi isso que fizeste, Hapi? Recebi-te em minha casa como se fosses meu filho, no entanto, zombaste das leis deste arraial como um estrangeiro em nosso meio.”

“Não foste tu que me ensinaste que tua transgressão te deu uma melhor compreensão das obras do Criador?”

“Admites, então, ter transgredido?”

“O que chamas de transgressão, eu chamo de libertação. Ademais, como esperas que tuas filhas se multipliquem pela Terra conforme ordenou-vos o Deus de vossa casa? Não fiz nada além do que percebi ser necessário fazer.”

“Começo a pensar que cometi um erro ao te designar como servo de Caim em suas vinhas.”

“Caim nada tem a ver com isto, meu pai.”

 “De fato, Caim foi apenas um joguete nas mãos daquela que arquitetou esta tragédia que ora se abate sobre minha casa, aquela que te carregava em seu ventre quando veio a mim para plantar a semente da discórdia neste arraial. 

Fui um tolo em esperar que o fruto de uma oliveira brava pudesse dar bom azeite.”

“Conheces, então, o paradeiro de minha mãe?”

“Se fosse conhecedor do paradeiro de tua mãe, saberia o que sucedeu ao meu filho Abu, que há tanto desapareceu de nosso meio. Não é dela, no entanto, que estamos falando, mas sim dos atos ímpios que cometeste neste arraial, maculando a mais sagrada dádiva que o Altíssimo nos concedeu.”

“Agi conforme a minha natureza e não vejo mal algum em tê-lo feito. Afinal, de que nos vale aprender tanto sobre o arbítrio do homem — esta sim, a dádiva maior — se quando agimos conforme a nossa vontade, tais atos são tidos como impróprios, e dignos de punição?”

“Quisera que teus olhos pudessem ver, mas estás cego como tua mãe.”

“Conheço a lei e sei que serei banido de vossa presença assim como fostes banidos da presença de vosso Pai quando comestes do fruto proibido. No entanto, se levardes a efeito tal punição, a quem dareis vossas filhas em casamento, aos seus irmãos de sangue?”

“Não me cabe questionar os desígnios do Altíssimo.”

Naquela noite, Hapi foi banido do arraial.

Antes da execução de sua sentença, no entanto, ele convenceu duas das filhas de Adão a partirem consigo. 

Naquele mesmo momento Adão havia ido aos aposentos de Nod para perguntar-lhe se ela permaneceria leal à sua casa, ou se seguiria com os dissidentes. Nod escolheu ficar, mas seu coração temia pelo destino de seu irmão.

Enquanto todos dormiam, Luluwa e Aklia deixaram o arraial levando mantimentos, sementes e cordeiros, e atravessaram o leito do rio em pequenas embarcações.

Quando raiava o sol, um mancebo que servia ao lado de Hapi nas vinhas de Caim veio ter com eles na outra margem do rio. O mancebo comunicou-lhes que, embora seu mestre fosse o primogênito, Adão havia prometido Nod a Abel, como sinal de sua aliança, o que despertara a revolta de Caim.

Hapi não queria deixar sua irmã no Vale, mas Luluwa e Aklia convenceram-no de que seria mais sensato que partissem apressadamente, porquanto, o patriarca não tardaria a enviar os rastreadores em busca deles.

E dali rumaram todos para o oriente.

2 comentários:

  1. Eliude, parabéns!
    Vou compartilhar com algumas pessoas que acho que vão gostar.
    E fico esperando os próximos capítulos. Como saber que já estarão prontos?
    Boa noite. Um abraço.

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    Respostas
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