28 de maio de 2017

Capítulo 34: Bodas de Pranto

28 maio Escrito por Eliude Santos , Comente aqui
“Levantai, minhas filhas, e preparai caminho para as bodas. Não temas, Nod, minha querida, porquanto estas lágrimas que ora vestem tua face como um véu de tristeza logo haverão de limpar os argueiros que te impedem de ver com clareza a grandiosidade dos passos que estás prestes a dar.

Levantai, minhas filhas, e cobri de flores o caminho de vossa irmã e preparai para os noivos um leito de lã e alfazema. Colocai romãs e uvas à cabeceira, e incensos e mirra à soleira de sua cama.

Poli com areia fina do deserto duas grandes placas de bronze bem firmes até que reflitam nelas vossa beleza e colocai-as uma à direita e outra à esquerda do leito nupcial, erguidas uma de frente para a outra, para que recebendo a unção patriarcal, possam os noivos ver refletidos a si mesmos em imagens que se repetem rumo ao infinito daqueles espelhos, pois nisto reside o propósito de sua união: incontáveis hostes de filhos etéreos do Altíssimo que esperam, além do Véu, que, através das sementes deste enlace, possam ganhar um corpo glorioso como o nosso e sentir os prazeres e dores que este mundo nos reserva.”

Eva apressava suas filhas nas preparações para as bodas.

“Levantai, minhas filhas, e banhai e ungi vossa irmã com unguento cheiroso. Colocai adornos sobre sua cabeça; e, sobre seus ombros, peles alvas e macias. Trazei-a nos braços para ser entregue ao seu esposo na presença daquele que há de selá-los numa aliança eterna que nem os laços da morte haverão de quebrar.”

Tendo dito estas palavras, foi interrompida por um mancebo que entrou sem fôlego em seus aposentos e disse-lhe algo aos ouvidos.

Eva tremeu diante das palavras do menino e saiu correndo ao encontro de Adão.

Adão estava à porta do assentamento com o filho ensanguentado nos braços. Eva lançou-se aos seus pés aos prantos, e todas as suas filhas foram ao chão consigo. Ela colocou-o no colo e acariciou sua pele dilacerada.

“Meu filho, meu filho, que besta do campo teria garras tão afiadas para, de golpe tão certeiro, roubar-te os sonhos e aspirações neste ímpeto de crueldade sem par?”

Adão estendeu a mão e mostrou-lhe o cutelo de Caim, ainda ensanguentado.

“O que é isto?” Indagou Eva, ainda sem entender.

“Viste Caim?” Adão não queria acusar o filho, mesmo sabendo que todas as evidências apontavam para o lavrador.

“O que estás dizendo?” Perguntou Eva, já entendendo o que o marido supunha ter acontecido. “Caim jamais faria tamanho mal ao seu irmão.” E abraçou o corpo frio e enrijecido de Abel.

“Talvez ele tenha usado o cutelo para proteger seu irmão contra alguma besta selvagem que lhe atacou e, fracassando, fugiu para não ser morto de igual modo.” Disse Adão, procurando tranquilizar sua esposa. “Precisamos encontrá-lo, pois se não foi o autor desta tragédia, certamente foi dela testemunha.”

“Ai, meu Deus, que sabor amargo é este? Que dor lancinante é esta que rasga-me o peito e faz-me querer que os céus e a terra se rasguem juntos?”

Diante do choro de Eva, Adão desabou de sua postura régia e caiu por terra, rasgando suas vestes e espojando-se na terra fria e molhada das chuvas da noite passada.

“Senhor, meu Deus, arranca-me os olhos para que não veja esta desgraça que se abate sobre minha casa, ou devolve-me logo ao barro para que minha semente não macule ainda mais este mundo que com tanto cuidado criaste para nós.”

Todos uniram-se ao redor do corpo de Abel e, juntos, choraram sua morte.

Do outro lado do rio, Caim corria por entre cardos e arbustos como se quisesse fugir de si mesmo.

A terra tremeu novamente e, tropeçando, ele caiu sobre o próprio rosto. O céu escuro se abriu e uma coluna de luz desceu diante dele.

Desta vez, o Homem de luz que lhe veio ao encontro não parecia tão sereno quanto Aquele que outrora aparecera junto ao altar. Seus olhos eram cor de sangue, suas vestes eram feitas em placas de um metal firme que reluzia como se fossem grandes escamas de ouro. De fato, toda a sua aparência era reluzente e assustadoramente ameaçadora.

Sobre sua cabeça, tinha um barrete com dois chifres que se abriam em doze pontas. E seu manto era feito de penas de aves brancas que, movendo-se atrás dele, deixavam um rastro de relâmpagos e trovões.

“Onde está Abel, teu irmão?” Disse o Homem de luz com voz estrondosa que penetrava até o âmago.

“Como poderia eu saber de seu paradeiro? Sou acaso o guardador de meu irmão?”

“Ousas mentir na presença de teu Criador?”

“Se sabes que minto, sabes então onde ele está e o que fiz com ele. Assim sendo, qual a razão da pergunta? Acaso queres me torturar ainda mais do que minha consciência já o faz?”

Ao que o Criador fincou sua espada na terra, que tremeu novamente fazendo rochas despencarem de lugares altos e vales abrirem-se em desfiladeiros.

“Maldita seja a terra que bebeu o sangue de teu irmão Abel, pois este será seu alimento até o fim dos tempos, nutrindo-se da podridão de vossos despojos para gerar novas vidas.

E tu, Caim, tremei e estremecei diante da Minha presença, pois Eu sou o Senhor Deus de teus pais e o sangue de teu irmão clama desde o pó por justiça.”

“Meu Senhor, corta-me ao meio com Tua espada e põe fim a esta minha existência miserável.”

“Se Eu atendesse o teu pedido, seria um assassino tão cruel quanto tu agora és. Antes, declaro sobre ti a Minha justiça e com esta espada, corto-te da linhagem de Adão até que tua semente ofereça por um período de quatro gerações seguidas sacrifícios justos ao Altíssimo, conforme aquelas oblações que foram reveladas a Adão, teu pai, ao deixar o paraíso; sim, ofertas justas à semelhança do sacrifício do Cordeiro de Deus que há de vir no Meridiano dos Tempos para redimir a todos da maldição que se abateu sobre esta Terra.”

“E o que sucederá a mim?”

“Tu fugirás da presença dos homens e terás pântanos e desertos, montes rochosos e cavernas escuras por abrigo. Porquanto, entre eles, não terás paz: serás perseguido e quem quer que te ache ou descubra o que fizeste se voltará contra ti e procurará tirar-te a vida. De modo que, na esperança vã de comprar tua segurança, tu te tornarás o pai das mentiras. E todo o domínio e poder que alcançares por estes meios farão de ti um alvo fácil para aqueles que têm sede de justiça. E como, por tua causa, a iniquidade amadurecerá, grande será sua crueldade para contigo. No entanto, atirando eles fogo contra ti, tua pele se regenerará; e esmagando-te os ossos, eles recobrarão sua forma; e cortando-te a garganta, a terra se recusará em beber teu sangue; de modo que morrerás muitas mortes sem que percas a consciência de quem tu és e do que fizeste a teu irmão. Sim, setenta vezes sete morrerás de pequenas mortes até que a grande morte te sobrevenha. E esta morte de que te falo não é uma morte no corpo.”

Os olhos de Caim foram abertos e ele se viu em uma gigantesca cidade com altos edifícios e adornos dos mais diversos e uma multidão de pessoas indo e vindo em seus afazeres, nenhuma delas fazendo caso de sua presença ali.

Viu então seu irmão Abel em um edifício de paredes retesadas e portas e janelas translúcidas. Um homem de avental branco costurava-lhe o pescoço e dizia que tudo ficaria bem.

Caim gritou por seu irmão.

“Ele não pode te ouvir, Caim. Abel irá descansar agora até que se cure da ferida que abriste em seu pescoço e possa então receber os encargos que haverá de executar naquela nova esfera de existência em que se encontra.”

“Se ele está de pé, então não morreu. Como podes chamar-me de assassino e punir-me com tão cruel maldição se meu irmão ainda vive?”

“Para mim, não há mortos nem vivos. Todos vivem. Morte é separação e Eu nunca me apartei de vós.  Mas para Abel, cuja essência pensante foi arrancada de seu corpo físico pela lâmina afiada de teu cutelo às vésperas de suas bodas, quando sua existência ganharia ainda maior propósito, tornando-se um pai de muitos, como Eu sou; e para teus pais, que ora lidam com a dor causada por esta abrupta separação, Abel está morto e seu corpo logo voltará ao cosmos físico donde os elementos para a sua constituição foram tirados.

Quando teus pais comeram do fruto proibido, foram corrompidos pela ferrugem que maculou a seiva que regava os tecidos de seus corpos perfeitos, de modo que esta seiva se tornou espessa e carmesim. A cada tragada de ar, esta seiva corrompida que chamais de sangue enche-se ainda mais deste veneno que vos torna maduros, fazendo-vos atingir a estatura perfeita, mas também enfraquece os ossos, enrijece as articulações e enferruja vossas entranhas, que aos poucos vão deixando de cumprir suas funções, de modo que, a cada baforada de ar, vossos tecidos vão-se desprendendo daquela essência energética que vos sustenta até que, não tendo mais no que se apegar, desvanece e volta à terra que lhe deu vida.

Não há nada mais natural que a morte física de vossos corpos imperfeitos, mas qualquer que, por descuido ou por intento, tira a própria vida ou a vida de outro, será chamado de assassino e responderá por seus feitos perante Mim.”

“Se eram tão graves as consequências da transgressão de meus pais, por que não colocaste os querubins ao redor das árvores proibidas antes que eles estendessem a mão para comer de seu fruto? Tu querias que eles morressem. Tu és um assassino maior que eu, pois eu matei a um homem e Tu mataste toda a humanidade.”

“Quisera pudesses enxergar as coisas como Eu as vejo. Se permiti que teus pais cometessem aquela transgressão é porque sabia que Eu teria o poder de restituir a vida que vos seria tirada com ainda mais vida. No dia da grande restituição, até mesmo os mais cruéis e indignos de meus filhos serão levantados de sua morte com um corpo físico perfeito e eterno, como este que possuo. Há, no entanto, uma morte sobre a qual nem mesmo a restituição de todas as coisas haverá de ter efeito algum.

A morte do corpo físico é o desprendimento da matéria física daquela essência que a sustenta de pé. Uma essência composta de ondas que vibram e ressoam como uma harmoniosa canção. Canções só morrem quando paramos de cantá-las. E nisto consiste aquela grande morte de que te falava.”

“E quando acontecerá esta grande morte e quem haverá de me acompanhar nela, pois não haverei de morrer desta grande morte sozinho?”

“Todos os que derramarem sangue inocente, e sua culpa não puder ser ressarcida pela expiação do Unigênito; e todos os que se rebelarem contra as palavras de meu julgamento morrerão desta grande morte que haverá de acontecer após a restituição de todas as coisas. 

Pois quando um homem ouve a verdade e recebe uma confirmação que reverbera nesta entidade vibratória e ressonante que lhe dá vida e ainda assim se recusa a aceitar o destino que ele mesmo comprou com seus pensamentos, palavras e ações, este homem não terá lugar nem mesmo no menor dos reinos de glória que preparei para ele. 

Não que eu não queira dar-lhe um lugar ali, mas ele não se sentirá confortável em quaisquer das Esferas que Eu criei e preparei para ele e preferirá ir para longe de Mim, pois achará que foi malogrado em seu julgamento.”

E Caim chorou ao ouvir aquelas palavras.

“Eu não teria feito tamanho mal a meu irmão se não tivesse dado ouvidos à voz do tentador.”

“Tu não terias feito tamanho mal a teu irmão se tivesses dado ouvidos à voz de teus pais. Portanto, não podes culpar nem a anjos nem a demônios pelo que tiveste coragem de fazer. Tu ouviste as opções. Tu tomaste uma decisão em teu coração. Tu fizeste o mal.”

“Se Tu tivesses instruído mais claramente ao meu pai sobre o que fazer quanto à minha primogenitura; se Tu tivesses providenciado um cordeiro para o sacrifício para que eu não fosse humilhado diante de meu irmão mais moço; se Tu não tivesses atentado para a sua oferta, mesmo sabendo as consequências que se abateriam sobre a nossa casa; se Tu não tivesses compactuado com a injustiça de meu pai, nada disso teria acontecido. Teu foi o cutelo que feriu de morte o meu irmão.”

“Caim, eu sofro por ti e sofro contigo. Quisera poder colocar palavras mais sábias na boca de meus filhos, mas se o fizesse, eu seria um ventríloquo e não um pai. Meu poder para onde o vosso começa. 

Teu pai fez o que, como pai, pensou ser justo fazer. Tu fizeste o que, sentindo-se injustiçado, pensaste ser justo fazer. Teu senso de justiça e o senso de justiça de teu pai conflitaram e ao invés de te reconciliares com ele, escolheste o caminho da rebeldia. A escolha foi tua.”

“Como poderia eu me reconciliar com alguém que é irredutível e pensa que suas decisões são a própria vontade do Altíssimo?”

“Conheces pouco a teu pai, e pouco te esforçaste por conhecê-lo melhor enquanto estiveste em sua presença. Assim como evitaste contato com ele, tu o privaste de conhecer-te melhor.”

“O que está feito, está feito. Nada posso fazer para trazer meu irmão de volta ou anular o meu crime. Se esta é a maldição que pronuncias sobre mim, que assim seja. Eu me afastarei da presença de meus irmãos e fugirei para longe.”

“Direi a Adão que qualquer que te matar terá que apresentar-se perante mim, e severa será sua punição.”

“Tuas palavras não evitaram que eu tirasse a vida de meu irmão e não evitarão que eles tirem a minha, caso me encontrem. Tu podes todas as coisas. Faze com que esta escuridão que caiu sobre mim no altar torne-se permanente para que assim eu possa me ocultar da vingança de meus irmãos.”

“Que esta seja a marca de tua proteção, e que esta marca recaia sobre teus filhos de geração em geração. E se tu e teus filhos se voltarem a Mim e aos Meus ensinamentos, e se tal comportamento perdurar por até quatro gerações, grande será vossa recompensa.

Vai agora aos teus pais e confessa-lhes o teu crime.”

Caim olhou em derredor e estava novamente sozinho. Virou-se na direção do Vale e correu para lá.

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