21 de maio de 2017

Capítulo 33: Bodas de Sangue

21 maio Escrito por Eliude Santos , Comente aqui
Ora, Abu e Ima foram os primeiros filhos que Adão e Eva trouxeram à luz deste mundo após terem sido alterados pela semente da corrupção do fruto proibido que lhes encheu as veias de sangue e lhes permitiu tornarem-se pais como Aqueles seres celestes que lhes haviam criado. 

Pelas leis de sua casa, de um dos primogênitos esperava-se que viesse nova progênie a fim de que seus outros filhos pudessem cumprir os três grandes mandamentos do Altíssimo: crescer, multiplicar-se e encher a Terra. Assim, com o desaparecimento de Abu, Ima e Hapi receberam o encargo de proverem esposas e esposos para os outros filhos e filhas de Adão. 

No entanto, por Hapi não ter tido controle sobre si mesmo e por ter deflorado suas irmãs, provou-se indigno do patriarcado e foi, portanto, expulso do arraial, impedindo assim que Ima fosse feita a segunda matriarca daquela geração.

Sendo Caim o filho mais velho depois de Abu, recaíram sobre ele os direitos à primogenitura, de modo que, já lhe era certo que Nod seria sua esposa e juntos haveriam de gerar esposas e esposos para seus irmãos.

Nod, sabendo das leis daquela casa onde fora adotada, sempre esteve mais próxima de Caim do que dos outros filhos de Adão.

Conhecendo-o de perto, não demorou a afeiçoar-se dele, afinal, Caim era belo e instruído, um homem da terra forte e formoso, dado ao trabalho e sempre pronto a servir.

Caim tinha um carinho especial por seu irmão Abel. Embora ambos tivessem seguido por caminhos diferentes quanto ao papel que exerciam em sua casa, Caim estava sempre ao lado do irmão, exceto quando Abel afastava-se do arraial para conduzir os rebanhos às terras do oriente em busca de pastos verdejantes que lhes servissem de alimento.

Aquelas eram terras perigosas, pois muitas bestas selvagens espalhavam-se à espreita por entre as árvores dos bosques ou nas fendas das rochas, prontas para atacar presas fáceis ou desavisadas que cruzassem seu caminho. De modo que Caim, embora admirasse a coragem de seu irmão, temia por sua segurança. Ainda assim, não o dissuadia de cumprir suas tarefas, porquanto, como homem da terra, Caim entendia que os rebanhos não podiam pastar nas áreas de cultivo e, por isso, alguém precisava desbravar as terras além dos limites do Vale em busca de lugares próprios ao pastoril. 

Por insistência de seu pai, às vezes Caim acompanhava seu irmão, mas não o fazia de boa vontade, nem se dava ao trabalho de aprender aquele ofício.

Adão não se agradava que Caim fosse um homem da terra, porquanto, conforme a palavra que ouvira do Altíssimo, o segundo patriarca daquela geração haveria de ser um pastor de ovelhas. Isto porque as habilidades aprendidas no pastoril seriam essenciais ao cumprimento de seus deveres como guardador de seus irmãos.  

Adão havia estabelecido leis em sua casa que garantissem que a palavra do Altíssimo se cumprisse. No entanto, até então, todos os filhos que haviam herdado as bênçãos da primogenitura pareciam dar passos diferentes daqueles que ele esperava que dessem. E, por confiar tanto nas mensagens que recebia do alto, desconfiava da retidão de seu primogênito.

Quando desceu do monte e reuniu a todos para apascentar seus corações quanto ao exílio de Hapi e falar dos novos tempos que os aguardavam, Adão chamou Caim e Abel à sua presença e disse-lhes que o Altíssimo exigia um sacrifício de suas mãos.

“Juntos escolheremos o cordeiro mais perfeito de nosso rebanho e o soltaremos pelo deserto e, por um período de quarenta dias e quarenta noites, o deixaremos à própria sorte. Na manhã do quadragésimo primeiro dia, saireis em busca dele e aquele que o encontrar há de levá-lo ao altar e oferecê-lo em sacrifício. 

E, agradando-se o Senhor de sua oferta, este será feito Sumo Sacerdote nesta casa e recairão sobre seus ombros os direitos à primogenitura e suas serão as bodas no arraial.”

“Meu pai, eu sou o primogênito e minhas são as bodas conforme decretam as leis desta casa.” Disse Caim, refutando a proposta de Adão. “Nod afeiçoou-se de mim e eu afeiçoei-me dela. Não é certo que ela seja entregue como troféu de uma disputa como se fosse um objeto qualquer, sem arbítrio ou desejos. Acaso foste até ela e perguntaste o que ela pensa de tua proposta? Acaso consultaste o Altíssimo e perguntaste o que Ele pensa de tão absurdo disparate?”

“Insultas-me na presença de teu irmão mais novo?” Adão não conseguia disfarçar seu descontentamento. “Como esperas ser um patriarca justo se não atentas às palavras de teu próprio pai?”

“Fossem justas as palavras de meu pai, eu atentaria a cada vírgula e a cada til.” Retrucou Caim. “Que justiça vês nesta disputa que propuseste? Meu irmão é um exímio pastor de ovelhas e competirá comigo que sou um homem da terra na captura de um cordeiro perdido no deserto. E como prêmio colocas em jogo a primogenitura que já me pertence e as bodas que já haveriam de ser minhas.”

“O que fizeste para merecer esta primogenitura e o ofício que te foi reservado, Caim? O que fizeste para que fosses aceito na ordem do patriarcado? Todos os dias de tua vida insisti que cuidasses do pastoril, no entanto, agradava-te mais a companhia de tua mãe e de tuas irmãs no cultivo da terra, na feitura do vinho e do pão.”

“Pelo que deverias ser grato, meu pai.”

“Não me entendas mal, meu filho. Sou-te muito grato por tudo o que tens feito pelos teus irmãos. Mas o que é que tens feito por ti e pela posição que ocupas nesta casa? Conheces a lei e tens procurado obedecê-la, mas também conheces as palavras da profecia e nada tens feito para que ela se cumpra em teus dias. 

‘Teu primogênito’, disse o Senhor, ‘será um pastor de ovelhas e como o vento arenoso do deserto sua semente se espalhará pelos confins da Terra. Pela voz de pastores como a daquele primogênito que, no deserto, aprenderá a arte do pastoril, teus filhos serão conduzidos por pastos verdejantes e habitarão em paz’.”

“Conheço a profecia mas não conheço todos os mistérios do Altíssimo.” Defendeu-se Caim. “O que sei é que não é justo isto que propuseste.”

“Caim.” Interviu Abel. “Nosso pai não está te privando de nada que já seja de fato teu. Terás quarenta dias e quarenta noites para aprenderes a arte do pastoril e eu te ajudarei em tudo que precisares. Tu serás meu pupilo por uns poucos dias e eu serei teu discípulo por todos os dias de minha vida quando fores consagrado como Sumo Sacerdote e patriarca de tua própria casa.”

Enquanto Adão dava as novas a seus filhos, Eva falava com Nod, que veio correndo ao encontro dos irmãos e abraçou Caim na presença de seu pai.

“Tu serás meu campeão e o Altíssimo atentará para a tua oferta. Tu serás o pai de meus filhos e o senhor de minha casa.”

No dia seguinte, um cabrito branco e sem defeitos foi levado por Adão e seus filhos ao deserto. 

No caminho, Adão deu a corda que haviam amarrado ao pescoço do cabrito a seu filho Caim, cujo semblante estava decaído. 

“Conduze-o, meu filho.”

“Por que fazes isto, meu pai?”

“Um dia um anjo enviado da presença do Altíssimo desceu a mim no altar e perguntou-me por que eu oferecia sacrifícios ao Senhor e eu lhe disse que não sabia exatamente o motivo, fazia aquilo apenas porque o Senhor me havia mandado.”

“Então o anjo te disse que fazias aquilo à semelhança do sacrifício do Unigênito do Pai que haveria de descer entre os homens no Meridiano dos Tempos.” Interrompeu Caim. “Disto eu sei, meu pai. Entendo a necessidade dos sacrifícios de animais e nunca te questionei quanto a isso. O que não entendo é por que estamos levando este cabrito ao deserto e por que minha primogenitura depende de encontrá-lo depois de quarenta dias, competindo contra meu irmão que é mais apto a esta tarefa do que eu. E entendo ainda menos por que tiveste que colocar Nod nesta disputa. Sabes de meus sentimentos por ela e de seus sentimentos por mim, por que ameaças a consagração de nossas bodas? Não me importaria de perder os direitos à primogenitura para meu irmão, pois ele é tão digno ao patriarcado quanto eu; mas por que tirarias de mim aquela a quem tanto amo e para quem tenho me guardado todo este tempo?”

“Meu filho, teu coração está cheio de mágoa e tuas perguntas já vem imbuídas das respostas que em tua mente tu mesmo já deste para elas; e quaisquer que sejam meus argumentos, tu os questionarás e te posicionarás contra eles. Eu compreendo tua mágoa e espero profundamente que me ouças naquilo que haverei de te instruir para que tu também venhas a compreender os meus pensamentos e o intuito de minhas ações.

Atentaste para o que disseste? Estarias disposto a trocar tua primogenitura pelos braços de tua amada, e nisto já admitiste o que tem mais valor para ti. Colocar o desejo acima do dever não seria um problema em qualquer outra circunstância, mas é nesta.

Se nossa casa não tiver um forte começo, terá um rápido fim. E se fracassarmos na tarefa de encher a Terra até que os filhos dos homens estejam prontos para receberem leis maiores que estas que nós recebemos, nossa raça será extinta e todo o esforço da Criação terá sido em vão.

Precisas entender a importância de tua posição como herdeiro das bênçãos da primogenitura; e, mais ainda, precisas estar certo do que estarias disposto a sacrificar caso qualquer um se pusesse entre ti e o cumprimento de teu dever para com Aquele que te criou, até mesmo Nod, a quem tanto amas.

Assim como todos nós, o Unigênito do Pai haverá de descer a este mundo sem lembrança alguma de tudo o que fez, nem tampouco saberá como levar a efeito o grande jugo que será colocado sobre seus ombros. E, como este cabrito, vagará pelo deserto, berrando ao Pai por explicações que não virão até que ele esteja pronto para as receber, um pouco aqui, um pouco ali, até o dia perfeito.

Como este cabrito, tu hás de chorar perdido diante do peso de tuas escolhas e vagarás a ermo até que te encontres e percebas o que fazer com o jugo que te puseram sobre o ombro.

Como este cabrito, muitos de teus filhos vagarão perdidos nos desertos de suas incertezas e precisarão de um pastor que os encontre, de um pai que os nutra, e de um sacerdote que dê propósito à sua existência. E isto não acontecerá se ao invés de te preparares para o sagrado ofício que te espera, tu te percas como ele no deserto de tuas próprias inseguranças.”

“Sempre fui um filho obediente e um irmão prestativo. Isto já não me qualifica para ser um bom pai?” Questionou Caim.

“Há um tempo para todas as coisas, meu filho. Logo chegará o dia em que sacrifícios como estes não serão exigidos dos filhos dos homens, pois eles haverão de se ocupar de fardos ainda mais pesados que os nossos. Purificados no fogo de suas aflições, encontrarão a paz. Uma paz que só será possível pelo derramamento do sangue de um bode expiatório como este.

O Unigênito do Pai pagará com seu sangue o preço de nossas imperfeições, mas de nada adiantará o seu sacrifício se, perdidos em nossa busca de nós mesmos, não ouvirmos sua voz, endireitarmos nossos caminhos, e corrermos até ele.”

“De todas estas coisas que disseste eu sou conhecedor, meu pai. Não precisas provar-me naquilo que já sou mestre. Nem deves tampouco exigir de mim aquilo que não te posso dar.” Defendeu-se Caim.

“Ouviste todas estas coisas, meu filho, mas não provaste delas.”

Caim calou-se e seguiu caminho.

Quando chegaram ao lugar desolado, Adão impôs ambas as mãos sobre a cabeça do cabrito e proferiu os ritos sacerdotais da transferência do fardo, tal qual seria feito com o Unigênito quando, no Meridiano dos Tempos, ele tomasse sobre si as transgressões de todos os filhos dos homens e se apresentasse diante das demandas da justiça para pagar aos espíritos do caos o preço de nossa existência.

O cabrito ficou lá aos berros enquanto os três se afastaram.

Caim estava muito abatido e quis ficar sozinho.

Estava arando a terra, quando um estrangeiro se aproximou.

“Soube que Adão e Eva estão preparando tuas bodas.”

“Quem és tu?”

“Sou um homem da terra,” disse Lúcifer, “mas nunca minhas mãos foram capazes de produzir frutos tão viçosos como os destes pomares. Quanto cobras por tão excelente trabalho?” 

“Meus irmãos comem livremente dos frutos desta terra.”

“Isto não é justo. Tu tens todo o trabalho, eles se fartam, e tu não lucras nada ao fim do dia?”

“Todos são gratos por tudo que faço e sua gratidão já me é suficiente.” Justificou-se Caim.

“Teu pai não me parece tão grato assim. De fato, soube que ele quer dar tua esposa àquele pastor de ovelhas. Que absurdo! Depois de tudo o que fizeste por esta casa é assim que ele te paga? Mas se ouvires meus conselhos, farei de ti um homem de posses e te cobrirás com um belo manto de ouro e prata no dia de teu casamento e meus parentes virão todos às tuas bodas.”

“Sei que há outros homens na Terra além de minha família, embora meu pai afirme o contrário. De fato, já falei com uma mulher de pele negra há algum tempo junto ao altar onde fazemos nossas oferendas. Nunca soube, no entanto, onde os poderia encontrar.”

“Meus parentes moram numa terra como esta, cheias de pomares como estes a nordeste daqui. Já convidei teu pai a vir visitar-nos, mas ele não aceitou minha oferta.

Mas se tu deres ouvidos às minhas palavras, e se vieres a mim após o teu casamento, deixarás para trás a miséria em que vives; e descansarás e terás uma vida bem melhor que a de teu pai Adão.”

Estas palavras do estrangeiro despertaram o interesse de Caim e ele recobrou o ânimo.

Lúcifer despediu-se e deixou o pomar.

Caim pôs-se a arar a terra com grande vigor. 

Eva, percebendo o deleite do filho, veio ter com ele.

“Fico feliz que tenhas recobrado o ânimo.” Disse Eva ao aproximar-se.

“Não graças a ti.” Recalcitrou Caim. “Quando meu pai te apresentou este disparate, o que lhe disseste em minha defesa? Ficaste calada e aceitaste tudo, como se sua boca fosse a própria boca do Altíssimo. Homens erram, minha mãe. E meu pai está cometendo um grave engano e tu estás apoiando este erro.”

“Se te esforçasses mais por conhecer a mente do Altíssimo, reconhecerias a sua voz, mesmo quando na boca de um homem falho e cheio de erros.” Defendeu-se Eva perturbada com as palavras que ouvia da boca de seu filho.

“Quem é o Altíssimo para que eu o conheça? Acaso já se apresentou a quaisquer de nós? Acaso já estendeu sua mão em minha defesa?”

“Meu filho, tudo o que temos feito foi pensando no teu bem. No bem de tua casa.”

“Se pensais no meu bem, por que estais para dar minha irmã em casamento a meu irmão? Estou por acaso morto?”

“Não estamos dando tua irmã em casamento a teu irmão, estamos entregando a ti a sorte de merecê-la.”

Caim aproximou-se de Eva e colocou o dedo indicador sobre os lábios da matriarca em sinal de silêncio e deixou-a sozinho no pomar.

Quando Eva disse a Adão o que havia acontecido, ele entristeceu-se pelo modo como Caim estava reagindo a tudo aqui e temeu pela alma de seu filho.

Nos quarenta dias que se seguiram, Abel procurou várias vezes o seu irmão para ajudá-lo a aprender a arte do pastoril, mas Caim não o recebeu. Preferia andar sozinho pelo campo, onde encontrava-se com o estrangeiro que pacientemente ouvia suas lamentações e fazia-lhe promessas de uma vida melhor longe do Vale.

Passados os quarenta dias, ambos saíram em busca do cabrito errante. 

Caim não fez qualquer esforço para encontrar o animal. 

Quando Abel apareceu com o cabrito ao pescoço, Caim ofereceu-se em acompanhá-lo ao altar.

Chegando ao monte, Abel viu que a lenha já estava sobre o altar e que uma estátua de milho à semelhança de um cordeiro dourado já havia sido colocada sobre a lenha.

“Não há espaço para a tua oferenda, meu irmão. O meu cordeiro tirado do fruto da terra será minha oferta ao Altíssimo.” Disse Caim, colocando-se ao pé do altar e acendendo a fogueira.

Não demorou para que o milho estourasse e flores de milho pulassem sobre o altar.

“O Altíssimo lança flores sobre o altar. Ele aceitou minha oferenda.” Disse Caim num tom de zombaria e desdém.

Abel, que havia sido empurrado para longe pelo irmão, ajuntou algumas pedras e gravetos que estavam espalhadas por ali, rasgou a garganta do cabrito e espargiu seu sangue sobre elas. Com um cutelo tirou a pele e as entranhas do animal e queimou sua carne sobre a fogueira.

Caim ria daquela cena, comendo as flores de milho e oferecendo-as ao irmão.

“Senhor, ouve as palavras de minha boca. Senhor, ouve as palavras de minha boca. Senhor, ouve as palavras de minha boca.” Disse Abel com o coração pesado por saber que se fosse de fato ouvido, aquilo machucaria profundamente a seu irmão.

Caim ficou ao pé do altar observando seu irmão, para ver se o Altíssimo aceitaria sua oferenda ou não.

Uma segunda vez clamou Abel aos céus e Caim pôs-se a rir novamente, pois resposta alguma parecia vir dos céus.

“Olha esta nuvem que se aproxima, acho que vai chover sobre a tua oferenda.” Tripudiava Caim.

A nuvem, no entanto, dispersou, e da nave desceu uma coluna de luz sobre o altar. Uma voz firme e doce ouviu-se à distância.

“Abel, bendito és tu, e agradável é tua oferta, cujo sabor suave sobe às minhas narinas.”

Na coluna de luz desceu um homem jovem e belo. Tinha apenas um manto extremamente branco cobrindo-lhe do torso aos joelhos.

O homem iluminado não disse nada. Apenas arrancou uma das costelas do cabrito e provou da oferta de Abel. Sorriu para o ofertante e subiu na mesma coluna de luz por onde havia descido.

Abel nunca havia sentido tamanho júbilo.

Caim nunca havia sentido tamanha ira. Então ele abriu sua boca em blasfêmia.

A mesma voz de antes foi ouvida novamente, “Por que decaiu o teu semblante, Caim? Se teus atos forem atos de retidão, tuas ofertas serão aceitas. Não murmuras contra mim, mas contra ti mesmo.”

Uma fumaça escura subiu do altar e envolveu Caim dos pés à cabeça, como se entrasse por seus poros e se espalhasse por sob a pele. De punhos serrados e pés firmes sobre o solo do altar, ele gritava de dor. Quando Caim desceu os degraus do altar, sua cor havia mudado.

Os dois seguiram ao acampamento e contaram aos seus pais o que havia acontecido. Adão entristeceu-se grandemente com o relato de Caim.

Ao que Abel acrescentou, “Como Caim não me deixou usar o altar, fiz um altar para mim mesmo e ofereci sobre ele o sacrifício.”

“Um amontoado de pedras”, observou Caim, “não um altar.”

“Ainda assim, foi para a oferta que estava sobre o amontoado de pedras que o Altíssimo sorriu.” Disse Adão ao tomar Abel em seus braços e beijar-lhe a face pois o Altíssimo havia aceitado sua oferta.

Neste momento, Nod entrou na habitação de seu pai e todos se entreolharam com um olhar solene.

Caim não quis ficar para ouvir as deliberações de seu pai e correu para o campo.

Ali encontrou-se com o estrangeiro que colocou ainda mais lenha na fogueira de sua ira.

“Decerto que teus pais amam mais a teu irmão do que a ti. Do contrário, não teriam sugerido uma competição tão injusta. E este tal Altíssimo, que tudo sabe, parece não se importar tanto com a injustiça de teus pais. Ou Ele sabe bem menos do que imaginais que Ele saiba, ou é tão injusto quanto teus pais.”

“Tu me disseste para fazer a oferta de milho. Se eu tivesse dado ouvidos ao meu irmão e aprendido com ele a arte do pastoril, não teria perdido a minha amada.”

“Achas mesmo que teu irmão iria ensinar-te em tão pouco tempo tudo o que sabe a ponto de tornar-te um pastor melhor do que ele próprio. Achas mesmo que tinhas alguma chance de ganhar esta peleja?”

“Estás certo. Minha primogenitura foi roubada de mim e, junto com ela, roubaram-me minha amada.”

“Só há injustiça quando os injustiçados aceitam de cabeça baixa a sentença.”

“O que eu posso fazer contra os decretos de meu pai? Ele é o senhor destas terras.”

“Volta para a tua casa e felicita ao teu irmão por sua conquista. Beija a teu pai e a tua mãe na face e diz-lhes que estás arrependido de tua conduta. Diz a Nod, em segredo, que ela será tua e faz com ela uma combinação secreta. Se fizeres tudo com cuidado, corrigirás toda esta injustiça e tirarás o prêmio indevido das mãos de teu irmão, ao mesmo tempo que privarás teus pais do êxito que planejaram contra ti.”

Caim fez conforme Lúcifer lhe instruiu e não deixou que ninguém soubesse da ira que nutria em seu coração contra seus pais e seu irmão.

Passados alguns dias, Caim foi ter com Abel.

“Não te afastes de mim, meu irmão. Sei que não te sentes confortável em minha presença e isto corta-me o coração. Amanhã serão tuas bodas e quero que este dia seja um dia glorioso para ti.”

“Nunca quis que nada disso acontecesse, Caim. Nunca desejei para mim a tua primogenitura, nem tampouco tomar-te as bodas.”

“Não te desculpes por tua vitória. Vitórias devem ser celebradas e não lastimadas.”

“Estás certo.”

“Vim convidar-te para acompanhar-me em um passeio. Tu sempre vais ao campo para trabalhar e pouco aproveitas da beleza e recursos destas terras. Há tanto o que experimentar, tantas coisas nas quais podemos nos perder em admiração silenciosa, tantas outras coisas para fazer além de ficar rodeado do odor dos dejetos desses rebanhos malcheirosos dos quais tu cuidas com tanto esmero. Afinal, tornando-te um Sumo Sacerdote e Patriarca, terás ainda menos tempo para aproveitar de todas estas coisas após tuas bodas.”

Abel sorriu.

“Hoje, meu irmão, quero que venhas comigo para celebrares a vida, pois tu és um homem reto e merecedor de todas as alegrias que os campos e os rebanhos possam te dar.”

Abel seguiu seu irmão ao campo. Juntos tomaram vinho, nadaram nas águas do rio, correram pelas campinas.

À noite, fizeram uma fogueira e contaram histórias sobre seu irmão Abu e suas proezas.

Abel confessou que tinha a impressão que seu irmão mentia para eles, pois todos esses anos em que o substituiu no pastoril, não encontrara nenhuma besta como aquelas que ele descrevia, e, na maior parte do tempo, o trabalho do pastoril era de fato bem tedioso.

A este ponto da conversa, Caim levantou-se assustado e pegou seu cajado, olhando em derredor.

“Você ouviu isto?”

Abel não havia ouvido nada.

“O rugido veio daquela direção.”

“Não te preocupes. Estas terras são seguras. Podes conhecer das delícias destes campos melhor do que eu, mas eu sei bem onde há perigo e onde não há.”

Sem que seu irmão visse, Caim atirou uma pedra na direção em que estava apontando.

Abel virou-se para olhar de onde vinha o som e Caim feriu-lhe a cabeça com o cajado.

Quando Abel caiu por terra, vendo que seu irmão intentava em lhe matar, clamou por socorro e clemência.

Caim segurou-lhe a boca com força para que ninguém os ouvisse e tirando da aljava um cutelo, rasgou a garganta de seu irmão e aspergiu seu sangue sobre a fogueira.

Aos prantos, amarrou o corpo do irmão de pé, de braços estendidos, nos galhos de uma árvore com a intenção de tirar suas entranhas e finalizar o sacrifício conforme mandava o costume das oferendas de animais, mas vendo seu irmão a quem tanto amara coberto de sangue diante de si, Caim caiu por terra aos prantos.

“O que foi que eu fiz? O que foi que eu fiz?”

Um tremor tomou conta de seu corpo e não sabia se era ele ou se era a própria terra que tremia diante daquele crime que ele cometera, de modo que, com as próprias mãos, pôs-se a cavar.

Um medo tomava seu coração de uma forma que nunca antes sentira.

Ele então lançou o corpo de seu irmão naquele buraco que ele cavou como se fosse uma semente lançada na terra recém arada.

Um raio de luz clareou os céus e um estrondo ouviu-se em seguida, e os céus choraram a morte de Abel. 

A fogueira apagou. Apesar da chuva, a noite ainda estava clara. O barro molhado escorreu, revelando o corpo. Parecia que a terra não queria aceitar aquela semente prematura que Caim queria plantar ali.

Sem saber o que fazer, Caim fugiu.

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