1 de junho de 2017

Capítulo 35: Um Ponto de Onde Não Há Retorno

01 junho Escrito por Eliude Santos , 2 comentários
“Onde vais?” Perguntou Lúcifer, tentando acompanhar os passos de Caim.

“Como ousas cruzar meu caminho depois do que me induziste a fazer?” Caim empurrou Lúcifer com o cotovelo. “Quão tolo eu fui em dar ouvidos às tuas palavras.”

Lúcifer caiu por terra, e Caim, em sua fúria, pôs-se a chutá-lo e amaldiçoá-lo com as palavras mais grosseiras que conhecia.

“Por que estás chutando estas pedras e fazendo o pó subir sobre nós?” Disse Lúcifer que agora estava de pé atrás de Caim, tocando-lhe o ombro numa curiosidade sínica.

Caim virou-se assustado e, vendo o tentador diante dele, caiu por terra.

“O que queres de mim? Por que me fizeste cometer tão grande mal àquele a quem tanto amava?”

“O que fizeste foi por escolha tua. Nada fiz senão apresentar-te escolhas, tal qual teu pai havia feito antes de mim. Não foi isso que te disse o Criador? Não deves culpar-me se o banquete de minhas palavras pareceu-te mais saboroso que aquele que o velho patriarca te servira.”

“Antes tivesse eu atentado para as palavras de meu pai.” Disse Caim amargurado.

“Mas não atentaste. E agora ele não perdoará tua ofensa. Se te apresentares em tua casa assim manchado de sangue, todos se levantarão contra ti para ferir-te em vingança ao teu ato vil.”

“O Altíssimo intercederá por mim.” Disse Caim.

Lúcifer riu.

“Do que ris?” Perguntou Caim enfurecido.

“És apenas um joguete nas mãos desse Navegante cruel. Não percebes que Lhe apraz que te tirem a vida? Desta forma, a morte do mancebo preferido é vingada e, com tua queda, ainda extermina o único oponente que de fato haveria de colocar em risco a concretização de Seu plano nefasto.”

“Tuas palavras são torpes. E vil é o intuito de teu coração.”

“Tudo que quero é justiça. Se preferes arriscar tua vida indo apresentar-te aos teus pais conforme te instruiu o Altíssimo, não interferirei.” Disse Lúcifer estendendo-lhe a mão para ajudá-lo a levantar-se.

“Minha vida? Já não há mais nada em minha vida que me faça odiar a morte; ou evitá-la. Eu cometi um crime imperdoável. Entenderia se meus pais se levantassem contra mim para vingar a morte de meu irmão.”

“Não há dom maior que este dom que ora desprezas.”

“E mesmo sabendo disto, induziste-me a roubar tão precioso dom daquele que era mais merecedor dele do que eu jamais serei. Roubei-lhe a vida e o que lucrei com o que fiz? Perdi o gosto pela minha própria.”

“Esse Altíssimo tem mesmo o dom da palavra. Alguns minutos de tua atenção e distorceu toda a verdade, enfiando-te neste poço de miséria a fim de fazer-te presa fácil para quaisquer das armadilhas que reservou para ti.”

“Eu matei meu irmão.” Gritou Caim em desespero.

“E agora Nod já não terá que se deitar com ele. Não era isto que querias?” Completou Lúcifer. “Ademais, se te apressares, ainda hoje, ela estará em teus braços e tuas serão as bodas, o fruto de tua diligência. 

E isto será somente o começo dos teus lucros. 

O que fizeste foi para salvar a tua honra, e nisto estás plenamente justificado.”

“Não me importa a justiça se ela não consegue aplacar este sentimento que me corrói por dentro e rouba minha paz.”

“Mísero torrão de barro! Chego a me apiedar de ti. É isto que desejas que os outros sintam a teu respeito? És um príncipe, e príncipes não devem suscitar pena; devem insuflar temor. Levanta a cabeça, pois isso que fizeste perturbará a muitos e fará com que eles todos tremam em tua presença.”

“De nada me importa o que os outros sentem por mim. Importa-me mais esta angústia que cresce cada vez mais em meu peito, fermentando o fel da amargura que sela minhas entranhas.”

“Uma amargura que foi plantada em teu peito por ti mesmo, porque não foste corajoso o suficiente para enxergares os degraus que subiste nesta hierarquia. Ou achas que tua vida se resumirá a este pedaço de terra árida, comendo pó e derramando teu suor como um condenado?

Se fosse eu o teu Criador, jamais permitiria que visses a ti mesmo com estes olhos de comiseração. Tu és um herói.”

“Não há nada de heroico no que fiz.”

“Então vai e diz ao teu pai o que fizeste. Um herói que não sabe de que lado está lutando pode ser mais danoso que um vilão que o sabe. Farás com que teu Opositor fique mais forte e esta batalha estará fadada ao fracasso.”

“Tu és o meu opositor. Não há outro.”

“Não. Como podes ser tão cego? Sou teu amigo. Quero ver-te triunfar, pois teu triunfo é o meu triunfo.”

“Se esta luta é tão importante para ti, luta-a sozinho.”

“Não se vence luta alguma sozinho. Eu preciso de ti; e tu, de mim. E juntos diremos ao Todo-Poderoso que não aceitaremos este mal que Ele fez.

Não percebes que nasceste diferente de teu irmão Abel? Não percebes que Hapi era diferente de vós? E tais diferenças fizeram-vos agir de modos tão distintos, ainda que vivendo exatamente as mesmas circunstâncias.

Abu apareceu-vos falando sobre monstros no bosque, e tu te escondeste destas bestas assustadoras no cultivo da terra para que não precisasses deixar o conforto e segurança do Vale onde cresceste. Já Abel encheu o peito de coragem e subiu às montanhas levando os cordeiros pelos caminhos onde tais monstros supostamente estariam, pois em seu coração queria enfrentá-los para, deste modo, tornar-se um semideus para os de sua casa, assim como era seu irmão para ele. Não esperava que este monstro surgisse num rosto tão familiar e falhou em defender-se daquilo para o que se preparou toda a sua vida. Nem tampouco tu esperavas tornar-te aquilo do que fugias.

Tu foste prometido a Nod; e Hapi, a Ima. Tu esperaste as bodas para deitar-te com tua prometida. Já Hapi deitou-se com todas as tuas irmãs em idade para o coito. E nada teria acontecido a ele se seus atos ocultos não tivessem vindo à tona. Era reverenciado por todos até que, descobertos seus segredos, tornou-se odiado e rejeitado pelos mesmos que antes falavam de amor.

Mas quem vos fez assim tão imperfeitos?”

“Cada um é o que é.” Respondeu Caim.

“E todos são o que são, meu amigo, porque assim foram feitos por Aquele que os criou.” Disse Lúcifer. “No entanto, esse perverso Criador tortura os que não são tão corajosos como Ele gostaria que fossem, nem tão pacientes como Ele ordena que se tornem.

Não lucraria mais já fazendo a todos perfeitos? 

No entanto, como um oleiro inexperiente, erra na criação de novos vasos. E por não saber consertá-los, esmaga-os sob Seus pés e alegra-se com o barulho dos cacos trincando.

Este é o Altíssimo a quem teus pais oferecem sacrifícios. Este é o Altíssimo que criou este mundo para colocar vários de Seus vasos malfeitos para serem humilhados por uns poucos vasos perfeitos que por fim Ele usará para decorar Suas mansões infinitas e eternas, deixando os demais todos juntos, quebrando-se uns aos outros por não aceitarem as imperfeições uns dos outros ou as imperfeições em si mesmos, até que, caco contra caco, só reste o pó desses vasos, de modo que nem mesmo o Altíssimo se lembrará dos erros que cometeu na Sua criação, fazendo pela eternidade outros vasos com as mesmas imperfeições para sofrerem das mesmas aflições. Assim, o universo é feito de vasos quebrados.”

“Estás certo.” Admitiu Caim. “Eu não estaria sofrendo assim se Ele não tivesse me feito um homem tão fraco e capaz de nutrir tão torpes pensamentos.”

“Enxuga estas lágrimas e refreia teus passos.” Disse Lúcifer. “Não é sábio que contes ao teu pai o que fizeste. Antes, vai até Nod e diz-lhe que não é seguro ficarem no Vale. Ela seguirá contigo aonde quiseres ir. 

Faze-o, no entanto, de madrugada, para que teus irmãos não te vejam.”

“Estás certo. Será melhor assim.”

“Agora, ajuramenta-te comigo de que não revelarás este segredo nem mesmo para tua esposa para que não sejas ferido na garganta como foi o teu irmão Abel.”

E Caim fez o sinal do juramento, conforme instruído por Lúcifer, passando o dedo de um lado a outro do pescoço.

“Farás, então, conforme o que eu te disser?”

“Sim. Obedecerei teus mandamentos e serei o guardião deste grande segredo.”

“Teu nome então será Mahan Usir, pois a partir deste dia tudo o que fizeres será para enfraquecer o reino Daquele que te fez fraco, a fim de que te tornes mais forte que Ele.”

“Como pode o vaso tornar-se mais poderoso que o Oleiro que o criou?”

“Revelo-te agora a chave de teus domínios. Atenta para o que te digo, pois nisto repousará o teu triunfo. Levantarei para ti uma grande nação, de modo que os filhos de Adão viajarão grandes distâncias para provarem dos teus manjares e para conhecerem as majestosas construções que erguerás em nome do Altíssimo. E tu cobrarás altos tributos a todos que entrarem em teus domínios, exceto àqueles que se ajuramentarem contigo para participarem deste grande segredo. 

Farás para ti um trono e nele te sentarás para deliberares sobre os atos daqueles que te servem. Com pulso firme, serás um bom regente aos olhos de teu povo. Mas cabe àquele que porta o cetro da justiça não ser bom todo o tempo, pois a justiça só existe na oposição, de modo que só há paz se houver guerra; só há lucro se houver extorsão; só há conquista se houver opressão. 

Diante dos homens, sempre honrarás com tua palavra, que é teu bem mais precioso. Se ensinares aos teus súditos os princípios de lealdade e fores um exemplo público de tuas palavras, todos confiarão em ti. Com astúcia, te aproveitarás desta confiança em teu próprio benefício, nem que isto exija sacrifícios e vilipêndios feitos à calada da noite, longe dos olhos daqueles que te apoiam.

Não questionarás se estás certo ou errado, pois saberás, pelos frutos de tuas obras, que estás certo, pois grande será o teu êxito.”

“E como erguerei este grande império se sequer tenho onde recostar minha cabeça?”

“Quem é o pastor dos rebanhos de tua casa?”

“Abel era o pastor dos rebanhos da casa de meu pai.”

“E onde está teu irmão Abel agora?”

Caim entendeu o que Lúcifer sugerira sem que o tentador entrasse em mais detalhes. 

“Como haverei de apossar-me dos rebanhos da casa de meu pai sem que ninguém me veja?”

“Teus pais e teus irmãos irão até a Caverna dos Tesouros para sepultar ali o corpo de teu irmão Abel. Quando eles se distanciarem do Vale, vai ao redil e arrebanha todos os cordeiros e novilhos, todos os porcos e aves, e traze-os até a outra margem do rio e eu vos ajudarei a cruzar as águas em segurança.

Uma vez que tenhas cruzado as águas do Pison, seguirás o caminho do sol nascente até que encontres uma outra caverna, onde habitarás por um tempo. E quando a ira de teus irmãos houver esfriado, seguirás em segurança com os teus para a terra de Nod, a terra em que teus filhos crescerão em segurança e onde tu iniciarás as obras secretas que farão de ti o mais poderoso dos homens.”

“Assim seja.”

Caim seguiu até o Vale e, conforme instruído pelo tentador, naquela noite, encontrou-se em segredo com Nod e disse-lhe que preparasse mantimentos e não seguisse com os demais à Caverna dos Tesouros, pois, levantando-se a névoa da madrugada, eles haveriam de deixar o Vale de Adão para não mais voltarem, pois aquelas terras já não eram mais seguras.

Caim falou de monstros meio-homens-meio-touros com chifres imensos que haviam rasgado de um só golpe a garganta de seu irmão. Disse que tentara protegê-lo, mas seu cutelo não se mostrara suficientemente forte para causar-lhes dano algum, de modo que ele fugiu para salvar a própria vida.

Disse ainda que os monstros estavam vindo a caminho do arraial e que logo chegariam ali.

“Apressemo-nos, pois, e avisemos a nosso pai Adão”, disse Nod, “para que ajunte também ele provisões e conduza a nossos irmãos em segurança para longe deste vale maldito.”

“Não há tempo para isto. Nossos irmãos mais moços atrasariam nossa fuga.”

“E deixarás que eles sejam feridos ou devorados por estas bestas feras?”

“Preciso que confies em mim, Nod. O Altíssimo apareceu-me no bosque e disse-me que Sua mão pesa em violentas punições sobre esta casa amaldiçoada pelas injustiças e transgressões que nosso pai cometeu contra a sagrada vontade Daquele que tudo conhece. Tu e eu sofremos o aguilhão destas injustiças e bem sabemos que o Altíssimo tem seus motivos para lançar seus julgamentos contra esta casa.”

“Sim, meu irmão. Estás certo. Mas deixa-me ao menos avisar às minhas irmãs que se detenham por mais tempo na Caverna dos Tesouros a fim de que lá possam encontrar algum refúgio contra tão severos julgamentos.”

“Faz como bem te aprouver. Só não lhes diz que estive contigo, pois conhecendo bem ao meu pai, sei que ele julga ter sido eu que tirei a vida de meu irmão. Ciente de que estou por perto, haverá de querer que eu me apresente perante ele para ser julgado e, fazendo-o, estaremos todos perdidos.”

“Estás certo.”

Nod fez conforme Caim lhe instruiu. 

Quando todos seguiram em direção à Caverna do Tesouro para sepultar o corpo de Abel, ela desviou-se do cortejo e voltou ao arraial. Caim já ajuntava todos os rebanhos e, juntos, seguiram na direção das margens do Pison.

Uma forte tempestade fez cair algumas árvores sobre o leito mais estreito do rio, criando uma ponte, por onde todos passaram.

Algumas aves, cordeiros e novilhos se dispersaram, mas finda a travessia, todos os remanescentes seguiram na direção daquela caverna que Lúcifer preparara para que lhes servisse de abrigo.

2 comentários:

  1. Eliude, nunca deixo de me impressionar com sua criatividade...
    Como não é uma característica minha escrever diálogos e tanto você como meus irmãos (Suzana e Nelson) usam bastante, principalmente Nelson, no último livro dele, Mesa de Bar que, até no caso, procede, tem que ser muito bom nesse quesito para não se tornar cansativo. Porque. na verdade, como eu escrevo (e tantos outros) a descrição sendo o forte, já ajuda a tocar a história para frente, ou descrevendo o ambiente, ou as pessoas e suas personalidades, ou as histórias que fazem parte de seus perfis e que vão influenciar no enredo do livro, ou seja, existem n recursos.
    Então, como eu disse. os diálogos tem que ser muito bons, embora eles também ajudem a contar a história, contando fatos passados e presentes.
    Enfim, você usa tanto descrições como diálogos e de uma maneira que flui, que ativa a imaginação para, de uma certa forma, nos sentirmos quase que presentes, testemunhas de tudo.
    Parabéns, meu amigo escritor. Procuro aprender também.
    Até o próximo!

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    1. Cris, eu amo textos fluidos e por isso tento fazer desse o meu estilo. Quando posso imaginar a cena acontecendo e as pessoas falando aquilo naquelas circunstâncias, percebo que estou no caminho certo... E este exercício de escrever este livro publicando capítulo a capítulo à medida que vou escrevendo tbm me ajuda a não querer voltar atrás e tentar manter o ritmo sempre... que bom que estou conseguindo! Obrigadooooo....

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