23 de julho de 2017

Capítulo 36: Ouro, Incenso e Mirra

23 julho Escrito por Eliude Santos , Comente aqui
O cortejo seguiu em direção à Caverna dos Tesouros. Adão ia à frente levando o corpo de seu filho envolto em uma fazenda de linho branco. Eva e sua prole seguiam com vasos de incenso e mirra, cestas de sal grosso e ramalhetes de ervas aromáticas.

Um silêncio solene acompanhava a marcha fúnebre.

Ninguém se deu conta da ausência de Nod, que se desviou do cortejo um pouco depois de deixarem o arraial.

Ao chegarem ao local do sepulcro, Adão depositou o corpo sobre um leito de pedras negras à altura dos olhos de seus outros filhos e descobriu os panos que o envolviam.

“Perdoa-me, meu Pai, por ter falhado em minha vigília.” Disse o patriarca de joelhos. “Construí um belo salão para guardar os tesouros que me ofertaste no Jardim, mas os pecúlios que eram de fato preciosos corriam soltos pelo campo, e deles me descuidei. Olho para minhas mãos calejadas e os vejo escapando pelos meus dedos como areia fina do deserto.”

“Não abraces sozinho o fardo desta culpa, meu querido.” Disse Eva, aproximando-se dele. “Se erraste, também eu tomei parte neste erro. Tua dor é minha dor. Por nossa transgressão trouxemos a morte ao mundo e, em nossa inocência, pensamos que o desconforto de arrancar de nosso corpo a essência que o mantém vivo seria a dor maior que nos adviria. No entanto, hoje percebemos que um pesar ainda maior recai sobre aqueles que se despedem dos que partem para o outro lado desse misterioso véu que, por nossa culpa, a todos aguarda.”

Juntos, pai e mãe, deram início à preparação do corpo para o sepulcro. Sete lâmpadas de azeite foram acesas à cabeceira, cada vela simbolizava um dos arcanjos portadores das chaves do poder do Altíssimo, sendo o próprio Adão o primeiro deles, a lâmpada central, cujo ardor alimentado no azeite de suas desventuras iluminaria a muitos dos que viriam depois dele.

Ao seu redor, hastes de incenso queimavam como que em lembrança da natureza volátil da chama que antes ardera naquele corpo e que ora se desprendia em uma essência suave e impregnante, como as boas lembranças devem ser. Daquele corpo, como das hastes queimadas, só restariam cinzas.

Primeiro lavaram as feridas com água e sal grosso e, em seguida, besuntaram a pele descorada e fria com azeite, mirra e essência de eucalipto.

Um corte reto feito na altura do umbigo permitiu que as entranhas fossem cuidadosamente removidas e todo o interior agora vazio fosse preenchido com sal e especiarias. Outros cortes foram feitos em caráter ritualístico sobre os mamilos e em um dos joelhos.

O corpo nu e dilacerado foi então vestido com um manto de linho branco. 

Sobre os olhos e a boca, e sobre os cortes nos mamilos, umbigo e joelho foram colocados emblemas sagrados gravados em pequenas placas de ouro que selavam aquele vaso sem vida como propriedade perene da semente divina que nele fizera habitação. 

E tudo isso fizeram afim de que, naquele dia ainda tão distante, este vaso frio e silente que haveria de se quebrar em minúsculos cacos — que de tão minúsculos se haveriam de confundir com o pó da terra donde surgira — pudesse ouvir a voz de um novo Selador que o chamaria pelo nome, dando ordem aos ventos que ajuntassem os odores que dele exalassem; às águas, para que devolvessem o barro pútrido de suas entranhas decompostas; e à terra, o que restasse dos ossos e da carne que em sal grosso seria conservada. De modo que, unindo-se pó ao pó e lodo ao lodo, aqueles minúsculos cacos retornariam à sua antiga forma, dando novamente substância física àquela entidade etérea que, de entre os mortos, reclamaria sua porção de vida, sabendo então com certeza plena quem de fato foi, é e será para sempre, pois naquele dia a morte já não haveria de ter poder algum sobre si.

Com um beijo sobre o selo labial, todos despediram-se daquele vaso sem vida. 

Findas as oblações, orações e cânticos, Adão rolou a pedra à entrada da Caverna dos Tesouros e todos subiram ao topo do monte que se erguia sobre aquela gruta.

Com o martelo e o cinzel, Adão cortou um longo bloco de mármore na forma de uma gigantesca agulha e, com a ajuda de seus filhos, ergueu-o sobre o sepulcro. Na base da imponente coluna de pedra, entalharam suas memórias e orações a fim de que todos os que viessem após eles soubessem o quão justo havia sido aquele valente pastor, e o quanto todos lamentavam por não terem sido bons guardadores de seu irmão.

Diferente das outras colunas e pilares que serviam de apoio às construções de Adão, esta era mais longa, e terminava em forma de pirâmide, cujo cume, banhado em ouro, parecia perfurar o Céu. 

E tal obelisco foi por eles erguido para que, num certo momento das conjunções astrais, apontasse para a posição exata daquela Estrela de onde vieram as suas essências imortais, o gigantesco astro que iluminava o trono do Altíssimo, cuja localização na Expansão fora revelada pelo próprio Criador ao velho patriarca. 

Por seis dias Adão trabalhou para erguer aquele monumento e, no sétimo, descansou.

E tão ocupada estava sua mente na obra de suas mãos que, de algum modo, o peso em seu coração foi-se dissipando. E aos poucos, o sorriso dos filhos menores começou a encontrar reflexo no seu. A vida parecia retomar seu curso como um rio que transborda uma barragem em dias de cheia.

Eva, no entanto, parecia regurgitar o sumo daquele fruto amargo que há tanto comera no Jardim. O mundo parecia ter perdido as cores, os cheiros, o viço. 

Ela já não queria deitar-se com seu esposo nem cuidar dos filhos pequenos.

Ainda na Caverna dos Tesouros Eva notou a ausência de Nod. E, por um momento, a aflição de não saber o seu paradeiro tirou-lhe da mente a imagem do filho dilacerado. 

No entanto, tão logo todos regressaram ao Vale e perceberam que os rebanhos haviam sido roubados, deduziram que Nod fora cúmplice de Caim naquele furto e, quiçá, no próprio assassinato de Abel. 

Diante de tais evidências, o coração de Eva voltou a esvaziar-se de sentidos de modo que seus olhos sequer conseguiam verter qualquer sinal de tristeza, como se estivessem já cansados de tanto pranto. De fato, só lhe restara um cansaço profundo e devastador.

Caim e Nod já estavam longe quando o cortejo voltou ao Vale. 

Caim fizera conforme fora instruído por seu mentor. Quando seus pais se distanciaram do Vale, ele foi ao redil e arrebanhou todos os cordeiros e novilhos, todos os porcos e aves que conseguiu, e trouxe-os às margens do Pison. E ali esperou por mais instruções.

Nod estava inquieta, pois temia que os filhos de Adão descobrissem o seu furto e viessem atrás deles. 

Naquela noite, um vento quente e seco vindo do leste espalhou as águas do rio, como que abrindo um caminho para a outra margem. O vento era forte e as gotas d’água pareciam rasgar a pele como grãos de areia numa tempestade no deserto.

No entanto, eles cobriram-se com peles de lã felpuda e forçaram os rebanhos a caminharem contra o vento, até que todos cruzassem para a outra margem em segurança.

Tendo atravessado o leito do Pison, seguiram o caminho do sol nascente até que encontraram uma caverna, onde ficaram por um tempo. Aquela mesma caverna onde Lilith habitara quando deixara o Jardim. 

Acostumada aos confortos da vida no Vale, Nod não gostou de suas novas acomodações. Tão logo conseguiram ajuntar provisões para se aventurarem numa nova jornada, ainda mais longa e atribulada que aquela que tinham acabado de fazer, seguiram caminho.

Caim, que sempre fora um homem da terra e se recusara a cuidar dos rebanhos de sua casa, agora levava um cajado à mão direita e pastoreava por terras inóspitas e estrangeiras.

A cada cordeiro que sacrificava pelo caminho para saciar a fome ou ofertar a seus novos deuses, lembrava-se da lâmina afiada com a qual tirara a vida daquele a quem tanto amava. Caim já não reconhecia a si mesmo e a cada dia via-se como um reflexo obscuro das imagens que mais odiava ver em seu pai.

Talvez por um sentimento de autopreservação, culpava a Abel por todas as intempéries que ora enfrentava. E, enchendo-se de ódio, rasgava ainda com mais força a garganta dos cordeiros, como se quisesse repetir neles o mal que fizera a seu irmão.

O berro entrecortado das oferendas, o cheiro forte do sangue derramado subindo-lhe pelas narinas, o jorro fétido das entranhas quentes esparramadas sobre a terra fria, tudo aquilo causava-lhe uma profunda repulsa.

Por vezes, quisera ter sido ele mesmo o cordeiro daquele sacrifício. 

Mas tão logo acendia o fogo, e depositava as carnes dilaceradas sobre as pedras aquecidas pelas brasas; o cheiro, antes nauseante, agora tornava-se suave e os despojos do sacrifício pareciam-lhe agradáveis ao paladar.

Saciada a sua fome, já nem lembrava do que fizera e seguia tranquilo o seu caminho.

Mas, Abel lembrava, com uma lembrança que lhe parecia ainda mais viva do que as lembranças que tivera enquanto habitara o mundo dos que esperavam a chegada da morte.

Quando a lâmina afiada de Caim rasgou suas carnes, Abel sentiu um tranco por dentro, seguido de uma sensação sufocante que cresceu rapidamente como se algo tenebroso inchasse dentro dele. Os ouvidos ficaram abafados para o mundo exterior e pareceram voltar sua atenção para dentro de si, naqueles poucos instantes em que ainda havia o que se pudesse chamar de dentro ou fora de si; sua vista falhou e seu corpo foi parando de responder aos poucos, à medida que engasgava-se com seu próprio sangue.

Num solavanco, sentiu algo despencar por dentro e, de repente, tudo ficou leve.

A dor e o desconforto passaram, mas também passaram todos os sentidos físicos que antes conhecera, de modo que a consciência de si mesmo lhe parecia distante, como acontece com um corpo cansado pouco antes de cair num sono profundo.

Uma névoa acinzentada cobriu-lhe os olhos, já não sentia o chão sob os pés, já nem sentia os próprios pés.

Vagou por um tempo como cego que estava naquele mar de leite que parecia ter inundado tudo à sua volta até que seus novos olhos se acostumassem ao brilho daquele novo mundo, ainda sem uma consciência plena de sua nova condição.

E caminhou por uma rua belamente pavimentada sendo observado com curiosidade pelos inúmeros habitantes daquele lugar. 

No que parecia ser uma praça, um Conselho de Anciãos o esperava.

“Aproxima-te, Meu filho.”

Abel não reconhecia quaisquer daqueles rostos, por mais familiares que lhe parecessem. Ele permaneceu de pé, diante do Conselho.

“Senhores, podeis dizer-me que lugar é este? 

Estava no campo com meu irmão e ele se levantou contra mim num ímpeto de fúria e me feriu. Estou tentando encontrar o caminho de casa para dar conta aos meus pais do que houve, mas me perdi no nevoeiro e vim parar nestas terras estrangeiras.”

“Não te preocupes com teus pais, nem com teus irmãos. Estás do outro lado agora. Senta-te conosco e come dos manjares de nossa mesa.”

“Do outro lado?”

“Estás seguro, e é isto que te importa saber.

Diz-nos com sinceridade de coração, filho de Adão, és um homem de bem? Tudo o que desejaste, fizeste; e tudo o que não te agradava, evitaste, de modo que sabes diferenciar o que é bom e mal aos teus olhos?”

“Sim. Sou um homem de bem e sei o que me faz bem e o que me faz mal, mas ainda há muito o que desejo fazer.”

“Bem está, servo bom e fiel. Se tu, que conheces a ti mesmo, dizes que és um bom homem; quem somos nós para duvidar de ti? És, portanto, bem-vindo em nosso meio. Permite-nos cuidar destes ferimentos e dar-te algo limpo para vestir.”

Os curandeiros aproximaram-se dele e conduziram-no a um dos nosocômios para fecharem as feridas e imperfeições que a mortalidade lhe causara ao espírito. Foi despido das vestes manchadas de sangue que trazia sobre si e colocado sobre um leito branco e confortável. 

Seu espírito foi entorpecido e os curandeiros que rodearam seu leito iniciaram os procedimentos. 

Quando despertou, O que estava à cabeça do Conselho veio ter com ele.

“Como estás, Meu filho?”

“Nunca antes me senti tão bem. Agradeço pelo cuidado e pelas vestes novas que me ofertastes, mas preciso seguir caminho. Meus pais devem estar aflitos. Sabes que direção me seria melhor tomar para chegar ao Vale de Adão? Hoje é o dia de minhas bodas.”

“Hoje também é um dia de festividades entre nós, e não é justo que tu partas assim tão apressadamente em um dia tão solene. 

A propósito, há alguém que quero que conheças.” Disse o Ancião. “Chamem o historiador.” 

Os que estavam à porta do nosocômio, ao ouvirem as palavras de seu Senhor, vieram apressadamente ao meu encontro.

Quando eles se aproximaram, eu, Udiel, estava recolhendo os relatos dos espíritos que acompanhavam a família de Adão e daqueles que seguiam os passos dos cabeças dos dissidentes, bem como dos ajuntamentos de bestas-feras e das hostes de hominídeos que surgiam nas cavidades das rochas do Novo Mundo.

Ora, esta era a tarefa de uma terça parte daquela sétima de filhos do Altíssimo que haviam sido trazidos a esta Terra na primeira das dispensações do tempo enquanto aguardavam o dia glorioso de seu encarne: guardar um registro preciso de todas as ações dos filhos dos homens e dos filhos da terra — sendo, os primeiros, aqueles que descenderam e descenderiam dos lombos de Adão e seus filhos; e os segundos, os híbridos manipulados pelos espíritos dos dissidentes que associaram-se e haveriam de se associar aos filhos dos homens, causando mutações que dividiriam aquela raça em opressores e oprimidos no desenrolar de sua experiência na carne.

Embora sua memória de uma existência anterior àquele estado houvesse sido embotada pelo Véu do Esquecimento, em tal tarefa estes espíritos encontravam algum propósito para sua existência nesta nova esfera para onde haviam sido enviados.

E todos os que demonstraram interesse nesta obra foram chamados ao trabalho e transitavam pelas paredes do tempo entre o mundo etéreo e o mundo físico a fim de coletarem não somente um registro das ações dos homens, mas também de suas palavras e intenções.

E todos os relatos que colhiam eram compilados em um grande volume, conhecido como o Livro da Vida, do qual, este livro que ora escrevo é apenas um breve sumário.

Havia ainda o Livro do Grande Segredo, que era um relato do uso do poder divino e de todo o conhecimento compartilhado pelos arcanjos criadores na manipulação da matéria física para a criação deste mundo, e o Livro do Cordeiro, que era o registro de todas as interferências do Filho do Homem na criação e orientação de vasos escolhidos a fim de que o desenrolar da história humana se desse conforme os planos do Criador. Neste volume seriam gravados os feitos e ensinamentos do Cordeiro quando habitasse entre os homens na carne e, posteriormente, quando, vencendo a Morte, realizasse os primeiros ritos de ressurreição, primeiro dos justos e depois dos injustos, até que todos os dois terços dos filhos do Altíssimo que apoiaram seu plano recebessem como acréscimo de glória um corpo físico, infinito e eterno como o daquele Ser que os criou.

Havia ainda o Livro dos Espíritos, que registrava as ações de todos os espíritos trazidos de Kolob para esta Terra e que aguardavam a chegada de sua encarnação, assim como um relato das hostes dos dissidentes que se haviam espalhado pela Terra e planejavam malograr os planos do Altíssimo.

Mas agora, um novo livro estava para ser escrito, o Livro dos Mortos, a fim de registrar os feitos e impressões de todos os desencarnados que adentravam aquela dimensão etérea de existência. E Abel, que outrora habitara conosco naquela esfera distante e que nos deixara para viver sua experiência num corpo físico como filho mortal de Adão e Eva, era o primeiro homem a voltar do mundo dos seres-viventes.

Fui, então, ao seu encontro.

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